1 – O Bar Puterror

Se tem um lugar que você tem que visitar quando vir pro inferno é o Puterror. Acho que é o bar mais daora que tem por aqui. E claro que a Dayanne melhora o lugar tipo uns cem porcento. A magia do bar, diria eu, é ela. O coração e o cérebro ao mesmo tempo. Mas também depende muito do humor dela. Se você chegar lá e não a ver com longos cabelos esvoaçantes, um salto quinze e uma minissaia, eu diria pra voltar outro dia.

Se ela não tá montada é porque algo muito grave aconteceu. Tipo o humano que ela trepou na última noite não deu no coro. Ou a unha dela quebrou antes de encontrar aquela mina gostosa. Ou pior ainda, se ela se montou de drag e o filho da puta (coloque todos os X aqui, porquê demônios não se importam com gênero. Eles só querem o prazer de foder ou ser fodido) não apareceu e deixou ela esperando.

Claro que se ela fizesse como eu, não teria esse tipo de problema. Essa galera daqui gosta tanto de tecnologia que às vezes até parecem seres humanos. Eles usam uma espécie de aplicativo que conecta demônios com gente que quer trepar com demônio. Tipo, tem que ter consentimento.

Qual é o nome mesmo? …. Hell … Hell alguma coisa …

Hellrnot!!!!!!

Isso mesmo!

Antes tinha outro … Grindhot eu acho, mas não caiu nas graças dos chifrudos.

Eu já sou à moda antiga. Tem concessão também, claro. Que tipo de monstro eu seria se obrigasse alguém a abrir as pernas pra mim (ou fizesse alguém entrar abrir minhas pernas a força) (um humano!)? Só trepo com quem quer trepar com meu corpo humano possuído do dia. Só que eu não falo pra eles que no final meu vírus vai secar tudo que fica dentro deles e deixar só a pele estendida lá, no chão, na cama, no sofá, em cima da máquina de lavar, no elevador ou onde quer que seja. E eu tenho uma longa coleção delas lá na minha casa. Segredinhos que prefiro guardar pra mim.

Dayanne sempre me chama de monstro quando lembro desse detalhe. Ué, a gente é demônio. A gente é, na visão dos humanos, monstros.

Hoje ela tá montada, então talvez eu até descole umas brejas de graça.

— Hei gata, manda uma Kaiser bem geladinha, por favor!

Ela se vira, jogando os longos cabelos (peruca) pretos para trás, tentando imitar aquelas propagandas de shampoo. E da certo, a bixa é bonita demais.

— Só se você me pôr nesse livrinho aí.

Dou uma gargalhada. Porra, já falei mil vezes que meu livro só tem os relatos dos humanos que eu trepo e seco.

— Dayanne, pra você fazer parte dele, vai ter que me dar uma chance para provar desse corpinho ai.

Ela traz o copo com a cerveja, passando as longas unhas dentro do líquido para misturar.

— Ora ora, pra provar disso aqui tem que merecer. Começando tratando os humanos decentemente. A gente tá no século XXI. Não precisamos mais matar eles. E também tomando uma cerveja melhor do que essa coisa ai que você sempre pede.

Eita, lá vem ela de novo com esse papo mano.

— Not today, satan! Not today. Nas minhas peles e minha Kaiser ninguém toca.

Ela solta uma risada estridente e se vai para atender outros demônios.

Tá na hora de colocar mais histórias nesse belezinha. E essa vai ser sobre o dia que eu fiz um pacto com uma escrava sexual. Aquele dia meu amigo, foi lôco!

696969 – Introduzindo

 

    Sexo. Depois que eu aprendi o que isso realmente era, pude entender os humanos. Coisa boa da porra sentir os prazeres proporcionados pelo corpo. Mas pra isso eu precisava de um corpo. E depois de anos aprendendo e aperfeiçoando a arte da possessão, finalmente achei uma forma fácil e rápida. Aliás, podem ser várias formas, porém no fim, tudo é mais fácil agora.
E o sexo.
Quando eu quero.
Com quem eu quero.
Isso não é um livro erótico destinado a fazer calcinhas molharem ou cuecas melarem. É um relato de minhas experiências com os humanos. Afinal, um demônio também pode querer virar escritor, não?
Sexo, cigarros e palavras. Nem sempre nessa ordem.
Um demônio que se pudesse, seria ator porno. Gay. Hétero. Paus e bucetas (talvez eu tente isso mais tarde).
E se quisesse, seria famoso.
Talvez eu queira.
Sexo.
Ou ser famoso.
Ou os dois.
Mas agora, um cigarro está bom.
E a sua alma de leitor.
Porém fique esperto que de noite eu posso te fazer uma visitinha.
Com o pau bem duro.
Ou a buceta bem molhadinha.
(E pode tirar esse sorriso do rosto, porque isso não é um livro de comédia).

1 – PRÓLOGO

 

A criatura encontrava-se deitada há milênios naquele local. Seu corpo, que um dia foi tão grande que preenchia aquele local escuro e úmido, encontrava-se com a metade do tamanho . Seu estômago roncava feito trovoada que ameaça colocar uma cidade inteira abaixo. Seus filhos não conseguiram comida. Os visitantes estavam cada vez mais escassos. Quem parasse na frente da caverna ouviria os lamentos de seu estômago.

Seu plano era expandir e crescer. Quando fosse tão grande que pudesse consumir outras pessoas e cidades, então ninguém poderia impedi-la. Fora trazida para aquele lugar para acabar com os humanos. Não fora a própria natureza que a moldara daquela forma? Mas os visitantes estavam cada vez mais raros. Amaldiçoava quem a tinha criado. Poderiam tê-la colocado em um local onde pessoas visitassem com mais frequência. Mas não. Fora jogada à própria sorte naquela cidade de nome horrível.

O certo era se alimentar uma vez por mês. Se fizesse mais refeições em um curto período de tempo corria o risco de explodir e evaporar. Então seguia a risca essa indicação (que não fazia ideia de onde viera também). Sua criação sempre fora uma mistério. Fora deixada ali, como parte da terra daquela gruta abandonada, com um corpo em cima do peito desnudo e um bilhete.

“Coma essa criatura em cima de seu corpo. Sua boca pode se abrir e seu estômago é capaz de engoli-la por inteira. Você é nossa salvação. Coma apenas uma vez por mês caso queira continuar viva. Coma apenas uma vez por mês e você ganhará o mundo. Tenha seus filhos e popule essa terra amaldiçoada. Dê poder a eles e crie mais filhos. Coma mais corpos. Domine mentes. Tome conta desse planeta e nos salve”.

Que diabos era aquilo ela não fazia ideia, mas achou por bem seguir a risca. Já passara anos sem comer um corpo se quer. Sem alimentar seu estômago faminto. Ou pior, sem nutrir sua mente.

Conforme os anos foram avançando, o homem foi dominando cada vez mais terras, até que alguém achou por bem fundar uma nova cidade em cima de onde ela habitava. Lago dos Cedros foi o nome dado ao local. Começou apenas com uma família que construiu sua casa nas margens do grande lago que encontrava-se no centro daquele lugar. Ela poderia tê-los devorado ali mesmo, mas se conteve. Por mais que a fome berrasse para que ela os comesse, não o fez. Precisava que a cidade crescesse. Necessitava que mais pessoas fossem até lá. Quanto tempo levou para que a cidade chegasse a dez mil habitantes, não saberia dizer. E foi então que ela começou seu plano.

8 – O Personagem da História

Quando Márcia cruzou a fronteira da cidade onde encontrou muitas viaturas de polícia e bombeiros, Marcos colocou a caneta de lado, orgulhoso de finalmente ter escrito a palavra fim.

E estava mais leve com o desfecho. Não era um final definitivo, por mais que parecesse. Sua personagem poderia viver novamente e estava feliz com isso. Era seu vilão, mas de certa forma não era um vilão ruim. Ela tinha os seus porquês e ele a respeitava por isso.

Olhou para fora e a paisagem ainda era a mesma. A cortina de neve descia sobre Lago Negro cobrindo qualquer visão. Ainda na cadeira, Marcos se espreguiçou e soltou um longo bocejo. Olhou no relógio e tomou um grande susto. Já passava das duas da manhã. Tinha perdido a noção de tempo, preso nas amarras da sua criação. Sua obra prima. De longe, o livro mais intenso que já criou um dia na sua carreira de escritor amador.

Levantou e levou as mãos à maçaneta da porta e ficou confuso ao verificar que estava trancada. Quando tinha feito isso? Não se lembrava de ter levantado para trancar a porta.

Deu de ombros e virou a chave. Caminhou até o quarto da mãe e ficou alarmado ao perceber que a cama estava vazia. Desceu as escadas e também não a encontrou lá. Foi até a cozinha e bebeu um copo de água enquanto pensava onde ela poderia ter ido. Era dia de semana. E mesmo que fosse sexta ou sábado, raramente ela saia de noite.

Lavou o copo e colocou-o no escorredor. Se dirigiu até a sala e quando abriu a porta, a menina estava do lado de fora, o aguardando.

***

Assim que Márcia saiu, ela sentiu algo estranho. Sentiu como se um novo fio a conectasse a alguém naquele lugar que ela acabou de destruir. E era uma conexão diferente. Não era o ódio e nem o amor. Era maior que os dois. Era como se seu criador a chamasse. Como se ele clamasse para que ela o encontrasse e que os dois pudessem conversar a respeito de sua origem. De sua natureza.

Ela seguiu aquele fio invisível. Passou por casas em chamas e por corpos no chão. Algumas pessoas ainda encontravam-se vivas, correndo de um lado para o outro em busca de uma nova vítima para batalhar até a morte.

Cruzou novamente a loja onde pegara sua primeira vítima.

Cruzou uma casa onde o corpo de uma homem e uma mulher pendiam pendurados por uma corda. Talvez tomaram aquela decisão ao perceber o caos que se instaurou na cidade. Porém, se os pobres soubessem que se não foram afetados, não morreriam naquele dia, jamais teriam feito tal ato. Ela lamentou por isso e disse a si mesma que da próxima vez os avisaria. Teceria mais uma rede, a mesma que criara os loucos e insanos, para unir os puros de coração. Para que vidas inocentes não fossem tomadas em vão.

Uma lágrima escorreu de seu rosto com a cena e mais uma vez ela foi pega de surpresa. Que sentimento era aquele que apertava seu coração? Tinha muito que aprender ainda sobre essas coisas. E o fio que ela seguia talvez esclarecesse algumas dessas coisas.

Chegou em frente a casa dele. Seu coração apertou. Estava na frente da fonte de suas respostas. E ela tinha tantas perguntas. Será que ele saberia respondê-las? Pensava que não todas. Talvez ele nem soubesse dela. Quem sabe não a criou por engano? Não importava. Estava ali e jogaria a sorte. E se ele estava vivo ainda, era uma boa pessoa. Um ser humano digno do novo mundo.

A luz de uma janela no segundo andar estava acesa. Ela ficou ali embaixo, com os pés enterrados em um metro de neve, observando aquele vão de vidro iluminado. Seu coração bateu mais forte.

Forçou os pés a se moverem, mas eles pareciam pesar mil quilos cada um agora. Ela caminhou devagar. Quanto tempo levou até andar aqueles dois metros até a porta, não sabia. Podia ter levado um minuto ou uma hora. E se ele tivesse o poder de apagá-la, assim como teve o de dar vida? E se ao descobrir sobre o que criou, perceber o monstro que trouxe para aquele mundo, ele a matasse? Porque ela sabia que as pessoas não a viam como algo bom. Para os humanos, ela era uma ameaça. Ela era a morte.

Pensou em virar a maçaneta e entrar, mas algo na sua mente pediu para que esperasse. E assim ela fez. Ficou parada por minutos na frente daquela casa desconhecida, com milhões de pensamentos percorrendo sua mente. Esperou até que ouviu passos. Seu coração ameaçou pular garganta afora. E então a porta se abriu.

***

Marcos levou um susto e deu um pulo para trás quando viu do outro lado uma pequena menina, de pés descalços e com apenas um vestido, sem nenhuma roupa de frio. Foi pego de surpresa e não estava esperando dar de cara com alguém ali do lado de fora. Ainda mais de madrugada.

Ela sorriu para ele.

Ele sorriu para ela.

O que era aquela conexão que estava sentindo em relação àquela estranha? Parecia que ele a conhecia.

— Está perdida?

— Há muito tempo.

Ele não respondeu. Ficou intrigado com as palavras dela.

— Desde a tempestade?

— Bem antes dela.

— Quer entrar? Podemos tentar ligar para seus pais.

Ela entrou.

— Espere aqui.

Marcos subiu as escadas e buscou no quarto de sua mãe um casaco quente que pudesse aquecer a pequena menina. Desceu as escadas correndo e entregou a peça de roupa para ela.

— Toma, você deve estar com frio.

Ela aceitou e se vestiu com ele, sorrindo de orelha a orelha.

Mais uma vez aquela sensação de amor inundou seu coração. Que estranho sentir-se assim com uma estranha. E essa sensação de conhecê-la muito bem era ainda mais estranha.

— O que quis dizer com bem antes da tempestade?

— Não saia correndo, por favor, mas acho que você me criou.

Ele riu, lembrando-se da época em que era criança. A imaginação na infância é uma coisa fantástica e por um momento ele sentiu uma nostalgia da época em que só se preocupava em ler seus livros e assistir seus filmes preferidos.

— Eu não tenho poder de criar ninguém, infelizmente.

Ela levantou-se e foi na direção dele. Pegou as mãos do garoto em suas e então ele viu. Sua história passando por sua cabeça. Da mulher gorda presa em sua caverna, dominando uma cidade e devorando humanos para que pudesse expandir. Para que pudesse purificar o planeta. Para que pudesse dar uma nova chance a raça humana.

Marcos se soltou das mãos dela e deu alguns passos para trás, quase caindo de bunda no chão ao tropeçar na mesinha de centro da sala.

— Impossível.

— Eu também pensava isso. Mas eu senti.

— Mas essa história só ficou pronta hoje. É impossível você ser ela.

A menina começou a chorar, mas eram lágrimas de felicidade.

— Ó senhor, obrigado por ter me criado e me dado esse papel tão importante.

Ele não respondeu. Seu rosto virou uma mistura de confusão e medo. E ela percebeu.

— Não tenha medo, por favor. Eu só quero respostas.

O garoto desabou no chão.

— Receio não ter. Acabei de descobrir que dei vida a um personagem …

E então um clique soou dentro de sua mente.

— O que você faz aqui em Lago Negro?

Ela sorriu mais uma vez e seus olhos brilharam junto. Por um instante ele pôde jurar ter visto chamas por detrás das pupilas da menina.

— Destruindo os que não merecem viver no novo mundo. Como o senhor me ordenou.

E então ele lembrou de sua mãe. E então a neve veio na sua mente. E o silêncio da noite. Um arrepio percorreu seu corpo. O medo invadiu seu ser.

— O que você fez?

— Matei e deixei viver quem merecia. Não foi pra isso que fui criada?

Marcos começou a se arrastar para trás com as mãos e chocou-se com a parede. Suor brotou em sua testa e escorreu por seu rosto. Ele deu vida a um monstro. Um ser malígno. Um ser destrutivo.

— Onde está minha mãe? — murmurou, mais para si do que para a convidada.

Mas ela respondeu.

— Receio que não viveu.

— Você não pode fazer isso. Não pode matar os outros a própria vontade. Você é uma história, e as histórias têm liberdade para isso porque são ficção. Nenhum inocente morre lá. É tudo ficção — berrou, com lágrimas escorrendo rosto abaixo ao ouvir as palavras da garota. — Se foi eu que te criei, exijo que você pare tudo isso. Suma, se exile, volte pra sua caverna. Deixe os humanos em paz.

Ela não falou nada. Ficou para onde estava. Seu rosto estava contraído. As palavras dele a machucaram. E o que ela sentiu ao encontrar seu criador se transformou em amargura. Foi rejeitada. Acreditava que tinha achado mais do pote do amor. Se enganou.

Levantou-se e foi na direção da porta. Antes de sumir em meio a cortina de neve, disse:

— Que pena que pense isso de mim, meu senhor, meu Deus e meu criador. Eu não tenho coragem de tirar sua vida e nem sei se existiria mais, caso fizesse. Porém, ainda vamos nos encontrar mais uma vez. Nesse mundo ou em outro. E espero que suas palavras da próxima vez sejam de desculpas. Histórias podem ser mais do que ficção. E acredito que no fundo você saiba disso também.

E então sumiu. Horas depois a neve se foi também. E da cidade que um dia existiu, apenas a casa de Marcos permaneceu de pé. Quando os bombeiros e policiais chegaram, encontraram apenas cinzas e neve derretendo.

E aquela casa intacta.

Quando abriram a porta, encontraram ele no mesmo local que estava quando a menina deixou o lugar. Mas palavras não saiam de sua boca. Reação não existia em seu corpo. Estava em choque. E ficaria assim por muitos anos. Talvez até o fim de sua vida.

Ela se foi e espera pelo próximo chamado. Pelas próximas vítimas e pelo reencontro. De seus olhos, lágrimas escorrem feito uma torneira aberta que nunca cessa. Pela neve que a acompanha, uma trilha se forma atrás dela em meio as pegadas de seus pés. A marca da amargura e da rejeição em forma de água expelida por seus olhos.

Ela chora.

Ela caminha.

FIM.

7 – A Fuga da Cidade

O banho durou alguns minutos e Márcia deixou a menina debaixo da água quente e aconchegante por mais tempo do que precisava. Percebeu que ela estava gostando da sensação de aconchego, do calor e do movimento da espuma de banho que a limpava.

Volta e meia a menina sorria e a mulher sentia-se a pessoa mais sortuda do mundo. Sabia que no outro dia teria de encontrar os pais dela, mas só de provar um pouco da sensação de ser mãe, de cuidar de uma criança, já era suficiente para o momento. O amanhã era outro dia e ela apreciaria aqueles instantes o máximo que pudesse.

Tirou a garota do chuveiro e a secou. Levou-a até seu quarto onde revirou no guarda roupa atrás de peças quentes. Tudo era grande demais para a menina, mas acreditava que isso não a incomodaria. Estaria quente e segura dentro de uma casa.

E então foi desperta do seu casulo de amor e paixão pelo marido. Ele entrou correndo dentro do quarto, abrindo a porta com um chute.

— Tá louco Bruno? Olha o que fez com a porta.

Mas ele não respondeu. Encarou a mulher com ódio no olhar e com a boca espumando.

— O que você tem?

O homem deu um passo para a frente.

— Se afasta daqui seu babaca. Você não vai fazer mal à essa garota.

E então pela primeira vez desde que entrara na casa, a menina falou.

— Não é a mim que ele quer fazer mal. É a você.

A mulher a encarou com dúvida e receio.

— Como assim?

A menina pegou a mão da mulher com ternura.

— Não se preocupe. Não vou deixar que ele te machuque.

A voz dela era carregada de uma forma tão adulta que por um momento Márcia se lembrou daquele filme onde os pais adotaram uma menina que no final descobriram ser uma mulher bem mais velha que parecia uma criança. E pela primeira vez desde que a encontrara, sentiu medo. E a menina também sentiu o medo dela.

— Não fique assustada.

E então envolveu a mulher em um abraço.

E como num passe de mágica Bruno deu as costas as duas e saiu correndo da casa.

— O que foi isso? Por que ele desistiu?

— Eu não sou uma criança. Sou algo além disso que nem eu entendo direito ainda. Minha natureza é limpar a terra das pessoas ruins e poupar as boas. E você me mostrou o que é o amor puro. O amor ao próximo.

Márcia estava incrédula e começou a se afastar da menina. Ela sorriu.

— Eu entendo seu receio, mas tenha a certeza que você viverá hoje. E você será mãe, como tanto deseja. Esse seu sentimento precisa ser compartilhado e espalhado. E eu tô aqui pra te salvar.

A menina pegou ela pela mão mais uma vez e a conduziu para fora da casa. Marcia não sentia frio, mesmo sabendo que a temperatura agora deveria estar abaixo de zero.

Se assustou com a cena que os olhos conseguiam enxergar quando chegava muito próximo. Quase tropeçou em um corpo estendido sem vida no meio da estrada.

— Oh meu Deus, o que aconteceu aqui?

— É a limpeza. Eles eram maus. Não mereciam viver. Seu marido também era. Você nunca se perguntou o porquê de nunca ter engravidado?

Márcia parou os passos.

— Como assim? O médico disse que meu útero era muito fraco para ter um filho.

— Ele mentiu e ajudou seu marido com um remédio abortista. Eu li tudo isso na mente dele. Ele não desejava ter um filho e foi a maneira que encontrou para dar um fim nos seus desejos maternos.

A mulher começou a chorar, lembrando-se das três crianças que perdeu e dos três filhos que poderiam estar com ela caso aquilo não tivesse acontecido. Podia acreditar na menina? De certa forma achava que sim. Mesmo que tudo ali parecesse uma história de terror e irreal, acreditava nas palavras dela.

— Então quer dizer que eu posso ser mãe — foi tudo que conseguiu dizer e depois as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto e colidirem com o chão gelado.

A menina a abraçou mais uma vez e Márcia sentiu novamente aquela sensação de amor.

Uma claridade começava a tomar conta de vários pontos e ela conseguia ver através da cortina de neve onde o local tornava-se mais claro.

Fogo.

— Oh meu Deus, a cidade vai queimar. Tudo vai ser reduzido a pó.

A menina pegou-a pela mão e a levou para dentro mais uma vez.

— Amanhã de manhã só restará as cinzas desse lugar. Os restos dos moradores poderão ser encontrados junto com as cinzas das casas e das árvores, mas acho que ninguém jamais procurará por isso. Será um mistério não resolvido e tenho certeza que você não falará sobre ele. Preciso chegar do nada e partir da mesma forma.

E então uma última provação passou pela cabeça da menina. Seria a prova final, para ver se a mulher realmente era tudo aquilo que aparentava.

A janela da sala se estilhaçou e uma mulher ensandecida se pôs para dentro. A mesma espuma que escorria pela boca do marido de Márcia estava presente na estranha.

— É uma das suas também?

A menina negou.

A mulher avançou na direção da criança com ódio no olhar e as mãos estendidas tentando buscar o pescoço dela.

Márcia foi mais rápida do que jamais pensaria que poderia ser. Os reflexos maternos estavam lá. Antes que a estranha pudesse alcançar sua protegida, um vaso de cerâmica a acertou na cabeça, deixando-a sem vida no chão.

A mãe de Marcos estava morta.

Márcia tinha passado no seu teste final, sem nem saber.

***

— Tem certeza que não deseja vir comigo? Esquecer da sua natureza e desfrutar de uma vida livre de toda essa matança?

— Tenho. Minha natureza me diz que é isso que devo fazer. Ele me criou para isso.

— Quem é ele? Deus?

— Uma espécie de Deus, sim. Talvez um enviado do próprio que vocês chamam de Deus. E eu sinto que ele está aqui. Preciso ficar e talvez encontrar algumas respostas.

A mulher assentiu. Antes de entrar no carro, envolveu a menina em seus braços por longos segundos e então beijou-a na testa.

— Então se cuida. E obrigado por tudo.

— Vá em paz. Quem sabe a gente se encontre por aí mais uma vez e você me apresente seus filhos verdadeiros. Existem outros mundos, Márcia, e talvez eu possa lhes apresentar quando tudo estiver completo aqui.

A mulher sorriu. Entrou no carro e virou a chave na ignição. Não sabe como conseguiu sair dali em meio aquela cortina branca e ruas cheias de corpos, mas no fundo sabia que a menina a guiava. Estava feliz.

Finalmente a esperança da maternidade se fazia presente. Ela poderia ser mãe, e seria em um futuro não muito distante. Seria mãe dos seus e dos que foram abandonados pelos pais. Seu amor era tão grande que não se contentava apenas com suas crianças. Precisava mostrar as que foram deixadas de lado que a vida podia ser boa.

6 – Enlouquecidos

Então aquilo era amor. Agora, mais do que nunca, tinha a capacidade de julgar os escolhidos e os condenados.

Fechou os olhos por alguns segundos, enquanto a mulher passava uma esponja quente por seu corpo, e os avistou.

Encontrou todos os maus da cidade dentro de sua cabeça e os ligou como uma teia de aranha. E então o mau foi instaurado. E eles próprios acabariam uns com os outros.

***

Marcos está sentado mais uma vez na sua mesa em frente ao seu caderno aberto, mas a caneta em sua mão não está criando palavras. Ela se move de um lado para o outro, pelos movimentos dos dedos do rapaz.

Ele encara o branco que se encontra do lado de fora da cidade, tentando fazer alguma ligação com sua história. Mas não encontra. Não tem neve lá.

O vento bate contra o vidro, agora fechado, e o barulho é gostoso. É inspirador. Ele baixa os olhos para o papel e continua de onde parou. Sobre a mulher gorda na caverna.

Ele ainda não compreende seu sentimento em relação aquele personagem, e teme o fim dela. Não sabe ainda se a criatura é boa ou ruim. As vezes ele concorda com as ações dela, as vezes não.

Suspira, mas a mão continua a escrever. As palavras parecem fluir de seu inconsciente de forma automática. Nem precisa pensar. Só escrever.

Ele nem percebe os barulhos no andar debaixo e nem os sons de berros do lado de fora da casa. Está em transe.

Sua consciência diz para que ele tranque a porta e ele nem se pergunta o porque. Apenas se levanta e faz. Depois volta para a mesa e continua a escrever. Se continuar nesse ritmo, logo terá um fim para sua criação. E ele teme o fim. O fim dela, não dos outros. Ele a ama?

Seus ouvidos não captam o barulho de batidas na porta. Uma bolha anti-ruído para envolver o garoto. As batidas continuam e depois cessam. Quem quer que quisesse entrar lá, desistiu.

E agora se encontra na rua. Sua mãe está enlouquecida. Assim como os outros moradores. E ele nem percebe que jamais a verá de novo. Nem com vida, nem seu corpo.

***

Um cenário de guerra se instaurava do lado de fora das casas de Lago Negro, em meio a cortina branca da nevasca.

A mãe de Marcos saiu correndo escada abaixo, após tentar abrir a porta do quarto do filho a ombradas. Não entendia o porquê de tanta raiva, mas queria socar o filho até abrir a cara dele em duas partes e ver o sangue jorrando pelo rosto dele.

Mas ela amava o garoto. Por que desejava aquilo?

Não fazia ideia. Só sabia que de um momento para o outro, uma raiva descomunal tomara conta de seu ser.

Percebendo que não conseguiria por a porta abaixo, desceu as escadas correndo e se jogou para fora da casa, procurando por alguém para bater.

E achou várias pessoas que já se encontravam brigando. Alguns corpos caídos, sem vida, jaziam no chão.

E ela chegou contra os que ainda estavam de pé, de punhos fechados e desferindo socos.

Seus pulsos doíam com a força com que socava rostos e corpos. Seu rosto doía com os socos e pontapés que recebia.

Sangue pintava a neve branca.

Gritos ecoavam pelas ruas da cidade insana.

Sentiu vontade de morder. De provar da carne humana e de sangue quente. Abriu os punhos e a boca e mordeu.

Outros fizeram o mesmo.

Só ela ficou viva daquele grupo da sua rua.

Saiu correndo em busca de mais.

E tinha mais ainda.

Eles lutariam sem nem saber o porque durante algumas horas.

E enquanto isso, a menina estaria amparada pela mulher no aconchego quente da casa,

envolvida pelo manto do amor.

“Se matem. Dêem fim as suas miseráveis vidas. Vocês não merecem viver” dizia ela na mente dos moradores. Era um truque que aprendera há muitos anos. O controle mental era uma de suas armas desde o início da sua criação.

E assim ela ficou enquanto a cidade era reduzida a poucos sobreviventes ensandecidos. Ansiosos por sangue e por carne.

E ela sorria, mas não pela carnificina. Sorria pelo amor da mulher.

4 – A Nova Moradora

Saiu da loja pelo buraco aberto por sua vítima. Ouvia a voz dele dentro da sua cabeça, implorando por misericórdia. Mas ela não tinha pena. O que estava feito, estava feito.

Passou pelo carro abandonado do homem, ainda com a porta aberta, esperando por seu condutor que nunca mais voltaria.

Voltou a sua forma natural de garotinha. Afinal, sua próxima vítima clamava por isso. Por uma criança.

Seus pés marcavam seu caminho pela neve que agora ficava cada vez mais densa e alta nas ruas daquele lugar, denunciando de onde o mal tinha vindo e para onde ele ia.

Passou por famílias que se divertiam em meio aquela confusão, incapazes de pensar que o fenômeno fosse algo relacionado com o sobrenatural. Que a neve trazia a morte e o fim de suas vidas. Não sentiu-se triste. Tristeza não fazia parte de sua natureza. Apenas selecionar os bons e os ruins. A nova terra estava sendo formada e era só isso que a preocupava. Era isso que a movia.

Ninguém pareceu prestar atenção na pequena garota, coberta apenas por um vestido em meio a todo aquele frio. O termômetro que a poucas horas marcava 35º agora exibia uma temperatura de 2º. Mas ela não tremia. Se alguém tivesse olhado na direção da rua e visto a menina que parecia transitar sem nenhum problema, de pés descalços e quase sem roupa, talvez tivesse pensado que algo estava errado. E talvez tivesse pego o carro e ido para longe da cidade a tempo de salvar sua vida (ou adiar sua morte). Porém ninguém o fez. E ela seguia o chamado da mulher.

A neve começou a intensificar assim que os passos dela percorriam a extensão das ruas. As pessoas começaram a se assustar com o vento que aumentava e com o frio que agora machucava. Os dentes dos moradores agora não mostravam um sorriso, mas chocavam-se um contra o outro, advertindo seus donos de que ali fora não era mais aconchegante e seguro.

Pouco a pouco os pátios das casas começaram a ficar vazios mais uma vez.

A nevasca aumentou e pelas janelas os moradores apenas avistavam uma imensidão branca. Nem a rua e as árvores podiam ser avistadas agora.

A diversão tinha acabado e o medo agora tomava conta da atmosfera de Lago Negro.

E ela sentia o medo.

E ela sorria.

E caminhava na direção do chamado da mulher. Da vítima. Do alimento.

EM UMA VIELA QUALQUER DA RUA AUGUSTA

stranger_in_the_dark_by_vise_de_hartie-d4my88x

 

O céu estava limpo e cheio de estrelas. Marcos acelerava os passos e volta e meia inclinava a cabeça para trás. A sensação de estar sendo seguido o acompanhava já fazia quase cinco minutos.

“Por que fui inventar de querer cortar caminho por aqui?”, pensava enquanto andava cada vez mais rápido.

Na baixa Augusta a iluminação era precária e a segurança mais ainda. Por diversos trechos a única luz que existia lá vinha da grande lua cheia, branca e agourenta, que seguia-o pelo céu, como se previsse alguma desgraça e ansiava por testemunhá-la.

Um som de passos invadiu os ouvidos dele, fazendo seu sangue gelar. Arriscou mais uma olhada para trás, rezando inconscientemente para que não visse nada. Mas viu.

Um vulto negro agora o acompanhava e quanto mais apurava os passos, mas a pessoa que o seguia também o fazia. Começou a correr. Ouviu os passos atrás dele correrem juntos.

“Porra, não, não, não … não faz nem um mês que levaram meu celular. De novo não”, pensava, enquanto corria. Os passos atrás dele estavam mais próximos agora. Gritou por socorro, mas não tinha ninguém por perto para ajudá-lo. O único som em resposta que recebia era o eco de sua voz, como se voltasse para tirar sarro dele. De repente tropeçou em algo e se estatelou no chão. Foi de arrasto rua abaixo e seu queixo foi quem sofreu mais, sendo arrastado por alguns centímetros até que enfim o corpo parasse. Sentiu gosto de sangue na boca.

Tentou levantar-se, mas a pessoa que o seguia subiu em cima dele.

— Que porra cara. — Disse, cuspindo sangue junto com as palavras.

— Quietinho se não quiser morrer. — Teve como resposta.

Olhou para a frente com a esperança de ver alguém vindo em sua direção para ajudá-lo. Não havia ninguém lá. Apenas uma rua escura e desabitada.

— Pega o dinheiro da minha carteira cara, mas não me machuca. Tenho uma filha. — Mentiu, tentando fazer com que o ladrão não o matasse ali mesmo.

Ouviu uma gargalhada como resposta. O homem em cima dele aproximou a boca do ouvido de Marcos e por um instante ficou em silêncio.

A respiração do ladrão era fria e o cheiro do hálito logo tomou conta das narinas do rapaz. Não era um cheiro ruim, mas era um odor que ele nunca tinha sentido antes. Palavras ecoaram em sua mente: “Morte”.

— Eu não quero dinheiro. — Sussurrou o homem, rindo baixinho e logo em seguida passando sua língua pela orelha de Marcos, em movimentos lentos e circulares. A língua era gelata, tal qual a respiração.

— Só quero um pouco do seu sangue.

— Que porra … — Tentou dizer enquanto fazia força para se desvencilhar do homem. Foi inútil. Com apenas um leve empurrão, foi jogado de volta ao chão.

O homem riu novamente. Levou a cabeça de volta ao ouvido de Marcos e falou:

— Se você for bonzinho eu te deixo viver. — E lambeu a orelha dele novamente, agora descendo até o pescoço.

— Cara, eu não curto isso. Tudo bem se você curte. Me deixa ir por favor …

O homem empurrou a cabeça do rapaz com força em direção ao chão, fazendo-a chocar-se bruscamente.

— Mandei ficar quieto.

A pancada deixou-o tonto. Sentia sua cabeça úmida. “O desgraçado cortou meu rosto”.

Ia morrer ali, jogado na sarjeta, em uma viela imunda da rua Augusta. Quanto tempo levaria até que alguém encontrasse seu corpo? Ou pior, quanto tempo levaria até que sua família soubesse de sua morte? Morava sozinho em São Paulo fazia três anos e não entrava em contato com os pais frequentemente. Sentiu lágrimas saindo dos olhos. O sonho de ser editor e tradutor seria interrompido, e faltava tão pouco. Fechou os olhos, aguardando a morte abraçá-lo e levá-lo para sabe-se lá aonde.

Então algo perfurou seu pescoço. No começo foi doloroso, mas segundos depois tornou-se tranquilizador. O que era isso tudo? Sentia que o homem estava sugando algo. Seu sangue? Não podia ser.

O sujeito ficou fazendo isso por alguns minutos até que Marcos desmaiou. Enfim a morte. “Mas que forma estranha de morrer”, pensou antes de ser tomado pela escuridão total.

 

***

 

Quando abriu os olhos novamente, viu o homem agachado em sua frente. Tentou levantar, mas a força o abandonou por completo.

— Não se esforce. — O homem falou, com grandes olhos castanhos que sorriam para Marcos.

O sujeito olhou no relógio e depois passou a mão pelo cabelo e então disse:

— Daqui a 6 horas o sol vai aparecer nesse céu. Se não quiser morrer, evite-o.

Marcos tentou falar, mas as palavras saíram embrulhadas.

— Vampiro?

O sujeito na sua frente sorriu, agora de forma afável.

— Sim garoto. É o que sou e é o que você será. Faça o que eu disse. Vá para casa, feche as cortinas e durma durante o dia. Quando a noite chegar, eu te encontro pra conversarmos mais. Você é meu agora.

Ele sorriu para o rapaz que ainda se encontrava deitado no chão. O que Marcos viu foi dois pares de caninos avantajados, saltando para fora da boca do homem. Deu as costas e se foi, da mesma forma sorrateira que aparecera, sem dizer mais nada.

***

Mais Contos do Autor no WattPad

 

Resenha: Escuridão no fim do túnel

escuridaonofimdotunelAutor: Henrique de Micco
Páginas: 78
Onde encontrar: Amazon e WattPad
Sinópse: “Escuridão no Fim do Túnel” Traz alguns contos sombrios, misteriosos, aterrorizantes e, principalmente, escuros. Todas as curtas e intensas histórias possuem algo em comum: São narradas, em seu ápice, do ponto de vista dos diferentes protagonistas munidos de lanternas, numa tentativa inútil de afastar de si a sensação de morte e o medo do desconhecido que pode emergir das sombras quase impenetráveis.”

 

Assim que passei da capa, já me deparei uma nota de dedicatória muito interessante:

Esse livro é dedicado a todos aqueles que, imersos na mais completa escuridão, deixaram-se guiar pela luz infinita do coração… 

 

Escuridão no fim do túnel” é um livro de contos, mas de certa forma, uma história completa. Cada conto é interligado por um objeto em comum e todos terminam com um final perturbador. É um livro que te deixa nervoso, mas acima de tudo, ansioso pelo final.

O livro começa com o pai e filho sentados, na sala de casa. O pai, prestes a contar algumas histórias de terror ao filho, diz que uma delas aconteceu com ele, e outras com amigos ou amigos de amigos. O filho, ainda desconfiado, pede para que conte-as mesmo assim. O pai cede ao pedido, exigindo apenas que ele pegue sua velha lanterna e apague as luzes. O garoto faz o que o pai pede e então anuncia: “O show de horrores vai começar”.

O primeiro conto do livro, já perturbador, é intitulado de “Um animal, talvez?”. Ele termina e te deixa agoniado. Talia, nossa personagem principal do conto, atropela alguma coisas durante a madrugada, enquanto dirigia sentido ao sul do Brasil. Nesse momento coisas estranhas começam a acontecer. Ao final do conto, não sabemos direito o que realmente ela atropelou, mas temos a certeza de que ela encontrou algo macabro no meio daquela rodovia.

Passou cerca de cinco minutos ali, imóvel, ouvindo apenas o barulho das gotas pesadas da chuva caírem sobre as folhas secas na terra. Ela se levantou lentamente.

 

Já no segundo, chamado de “Dedo no gatilho”, Fred é o protagonista. Ele acorda e se prepara para ir ao trabalho. No caminho, quando está na fila da bilheteria do metrô, se depara com uma menina perdida. Mas a pressa – dele, e depois da multidão – não o permite ajudá-la.

Quando está quase chegando ao seu destino, algo estranho começa a acontecer. Primeiro, o trem pára, deixando ele e os passageiros nervosos. Fred começa a ver coisas estranhas que nenhum outro passageiro parece enxergar. A cena final do conto te faz soltar um “O quê?” espontâneo.

As pessoas imploravam por salvação; Oravam em alto tom e choravam. Fred não sabia o que fazer; Ele estava tão confuso e assustado quanto todas elas

 

Em “Encomenda suspeita”, o terceiro conto do livro, Iolanda se prepara para sair de casa junto com sua amiga Michele. Enquanto Iolanda se arruma, alguém deixa um pacote na porta de sua casa, com os dizeres: “Para a Srta. Iolanda Rubens de Andrade, com todo o amor e carinho que ela merece.” E o pior é o que se encontra dentro dela.

– Aaaaaah! Deus… O que… – Ela olhou mais uma vez para ter certeza de que não havia sido enganada por seus olhos.

 

Sob olhares desconhecidosconta a história de um policial bêbado e sua mulher, Talia. Ao sair de casa para fumar, Pablo pôde ver que a grade da casa do vizinho estava aberta. Não seria estranho se não fosse o fato de que eles haviam se mudado para o interior e a casa ainda possuísse objetos de valor dentro dela. Como todo bom policial ele decide averiguar. Grande erro.

Pablo bateu a porta e atravessou o quintal até parar no portão. Acendeu um cigarro, perdendo-se em seus pensamentos até ser interrompido por algo estranho que chamara a sua atenção. O portão da casa da frente parecia estar entreaberto. Casa que estava vazia há dias, após seus vizinhos decidirem se mudar para uma pequena cidade no interior.

 

Em meio aos contos, existe a pausa para o café, onde o pai do garoto pede para que ele busque uma faca de churrasco na cozinha e prepare um café para beber. E essa pausa é muito bem vinda no livro, porque Encomenda suspeita e Sob olhares suspeitos trazem duas cenas realmente desconfortantes.

Logo após isso, o pai continua a contar a última história do livro, chamada de O viajante misterioso”, e é nesse exato momento que a ligação entre os contos começa a ficar mais visível. É aqui que o leitor começa a entender algumas coisas por conta própria e também através de explicações do pai.

O livro tem um desfecho muito bom e de certa forma inesperada. Talvez por isso, seja tão interessante. Não é previsível e é impactante. Cheio de cenas de horror puro em que deixa o leitor agoniado como se navegasse por entre as histórias, mas com um final bonito e uma mensagem muito boa.