Capítulo 1 – Ela Caminha

SEGUNDO LUGAR no concurso do perfil oficial de suspense (SuspenseLP) do WattPad

“Intrigante e congelante! Precisei me cobrir com várias camadas de cobertores enquanto lia; traduzindo assim as fantásticas ações textuais para ligar o leitor a obra.”

Estava livre. As amarras da caverna não a prendiam mais. Movia-se por seus próprios pés. Quanto tempo se passara, não sabia. Quem a libertara? Não fazia ideia. Provavelmente seu criador. Quebrou as rochas que a aprisionaram naquele lugar como se fossem mero papel, esfarelando-as com facilidade em apenas um toque. Os feitores provavelmente nem viviam mais. Seus filhos jaziam mortos e deles restavam apenas os ossos. Comeram da carne um do outro até que comida não existisse para alimentar seus corpos. Viu eles se definharem aos poucos, sem poder fazer nada, inerte em seu lugar. Em sua antiga prisão. Tentaram saborear-se dela como um último ato de desespero. Morreram ao encostarem em sua pele.

Seus pés agora moviam-se e era uma sensação um tanto quanto engraçada. Os primeiros passos foram bagunçados e desajeitados, mas ela aprendeu rápido. E agora caminhava por entre a terra que conhecia apenas pelos olhos de outros. Mas o local estava deserto. As ruas e as casas que um dia foram habitadas por seus filhos e pelos corpos dos humanos agora estavam tomadas pela natureza, cobertas de mato e flores.

Seu corpo havia mudado. Não era mais aquela coisa imensa. Sua natureza não era mais crescer e expandir. Agora ela podia andar e se locomover. Mas ainda estava faminta.

Nevava lá fora. Era por causa dela? Como sabia que aquilo era neve, se nunca tinha tido contato com tal fenômeno? Achou melhor não questionar.

Estava livre.

Faria o desejo de seu criador finalmente, depois de tempos adormecida. Limparia aquele mundo dos que não davam valor a ele. Agora sabia o que tinha feito errado desde o início, e talvez por isso seu destino tomou um rumo indesejado no passado.

Porém agora entendia o como. Fazia parte de sua natureza e cabia a ela julgar os que fariam parte do novo mundo e quem não.

Andou pelas terras com os pés descalços, sentindo as folhas das árvores por entre os dedos dos pés. A energia de tudo se conectava a ela.

Tudo aquilo era ela.

E a neve a seguia, pintando a paisagem de branco e cobrindo tudo com sua cortina de neve.

Já tinha esperado demais. Era hora de começar tudo de novo.

Da maneira correta. Com a benção dele, seu criador.

CONTO – CULPADO

Naquela manhã o céu estava preenchido por nuvens gordas e escuras que derramavam gotas grossas de água por todos os cantos. O som delas se chocando com o telhado e as calhas da casa penetrou meus ouvidos me trazendo do mundo dos sonhos, fazendo meus olhos se espremerem e minha testa enrugar diante daquele maldito barulho. Detestava aquela cidade e o fato de parecer um imã para tempestades. A chuva era uma das coisas que eu mais odiava. Ela e meu filho ocupavam quase o mesmo lugar no meu pódio de coisas detestáveis e irritantes que a vida podia oferecer. Aquele ruído incessante que me fazia certas vezes pegar um tapa ouvidos e enfiá-lo fundo dentro das orelhas para tentar amenizar a irritação estava ali quase todos os dias, como se Deus risse da minha desgraça e se divertisse com tudo que me infligia dor. E ali estava ela mais uma vez, me tirando de um mundo fantasioso criado pelo meu cérebro, onde não existia chuva nem filho por perto, às sete horas da manhã de um domingo. Um dos únicos dias que eu podia ficar esparramado pela grande cama king size que um dia tinha dividido com minha esposa vagabunda, desfrutando do descanso e longe dele. Do pirralho que me fazia lembrar dela todo santo dia da minha miserável vida.

Meu filho provavelmente estava esparramado no sofá assistindo televisão, com um pacote de bolacha maria jogada do seu lado, mastigando ela e espalhando farelo por todos os lados, e um copo de nescau do outro para ajudar a processar a comida. Como se a vida e Deus não tivessem me zoado o bastante, ele adorava acordar cedo. Antes de o sol raiar no céu (quando ele aparecia ao invés da chuva), o moleque já estava de pé e na frente daquele aparelho. Dormir é desperdício de tempo, papai, vivia me dizendo, com seu dedo indicador levantado como se fosse um sábio do século XXI filosofando sobre dormir demais ou qualquer outra bosta do gênero sobre desperdiçar tempo. E a vontade de fechar o pulso, pressionar os dedos contra a palma da mão, colocar toda força que tinha no músculo do braço e levar o punho na direção da cara do pirralho era descomunal quando ele agia daquela forma, como se fosse mais esperto do que o próprio pai.

Os traços que desenhavam o rosto do pirralho e emolduravam a imagem e semelhança da mãe dele me faziam arder em um mar de raiva que eu nem sabia que existia até a vagabunda nos deixar. Parecia uma cópia idêntica dela, não só na imagem como em todo o jeito de se comportar e existir. Quando ele sorria, via ela na minha frente, mostrando aqueles dentes brancos e felizes na minha direção quando achava graça de algo que eu dizia. Quando ele falava, parecia a voz dela e a forma de emitir o som das cordas vocais que ela possuía quando conversava comigo no dia a dia ou na hora de deitar-se na cama para enfim descansar. Ele era ela em miniatura. Uma criança que me lembrava dela todo santo dia. E me lembrava de que ela tinha me abandonado junto com ele, deixado aquele pequeno pedaço de carne humana para trás junto com o marido corno. Deixando a cópia dela na minha vida para me torturar com a lembrança de ter sido chifrado e deixado para trás todo santo dia, até que ele pudesse finalmente sair de casa e me abandonar também.

Tentei empurrar ele para meus pais e para os pais da vagabunda, mas nenhum aceitou. Tentei lares adotivos e também recusaram. Meu salário era suficientemente alto para dar conta de sustentar uma criança. Mas o problema nunca foi o sustento. Era aquela cópia infernal da minha ex esposa.

E foi na noite desse dia que eu vi uma oportunidade de me livrar dele. De arremessar o pivete para fora da minha vida com um pontapé tão forte que seria impossível ele voltar.

Naquela noite, Josué deixaria de respirar. Não sujaria mais minha casa. Não derramaria mais nescau pelo chão. Mas acima de tudo, não me lembraria mais de tudo que eu odiava na vagabunda e nele. E eu acordaria com um largo sorriso no rosto, contente por levantar e não me preocupar mais com as lembranças. No outro dia, meu coração pesaria alguns quilos a menos e as amarras que antes o comprimiam seriam soltas para que ele pulsasse livre mais uma vez.

**

O moleque passou o domingo inteiro dentro de casa, assistindo a filmes na NetFlix. Disso eu jamais poderia reclamar, apesar de tudo, ele não incomodava de forma alguma. Se eu não visse a vagabunda todos os dias estampada no rosto dele, me lembrando que eu tinha sido chifrado e abandonado, acredito que eu teria gostado de ser pai dele. O pirralho era inteligente e carinhoso. As vezes eu via tristeza no olhar dele quando eu o tratava com indiferença ou de forma grossa, e não vou mentir que em algumas dessas vezes eu me odiava por agir daquela forma com uma criança. Ele não tinha culpa dos atos da mãe. Mas eu também não.

Em certo momento eu me juntei a ele para assistir alguma coisa também. Tinha aproveitado o domingo para dar uma geral na casa. Depois de um banho sentei no sofá e logo ele se jogou em meu colo.

— Vamos ver um terror, papai?

Meu Deus, porque ele tem que falar igual a mãe?

— Vamos.

Ele me olhou nos olhos e deu um sorriso sincero e amoroso. Mas era o sorriso dela. Da vagabunda.

— Eu já até separei esse aqui ó. Vi nos comentários e a galera achou mó daora.

Sorri de volta, forçando os dentes em uma linha reta que provavelmente foi mal sucedida, pois ele baixou a cabeça e o brilho dos olhos sumiu. Ele se afastou de mim naquele momento, colocando-se do outro lado do sofá. Puxou sua cobertinha até o pescoço e com o controle remoto selecionou o filme.

Puta que pariu, eu devo ser um monstro mesmo. Como eu posso tratar meu próprio filho, sangue do meu sangue, desse jeito?

O coração pesou naquele instante. Aquele sentimento de ser um monstro me assombrava cada dia mais. Ele se mesclava com a raiva e com o amor. Em alguns momentos eu me lembro de chegar a ter rezado para que o ódio se fosse. Pois por mais que eu o odiasse com todas as minhas forças, eu sabia que ele não tinha culpa. Afinal, ele também tinha sido abandonado pela mãe. Nós dois deveríamos nos firma um no outro e continuarmos juntos. Porém, ele sofreu mais que eu no fim das contas. Ele foi abandonado pelo pai também.

— Vem cá garoto. Vem aqui com o pai — foi tudo que eu consegui dizer, me arrependendo logo em seguida. Pois ele sorriu, e aquilo me lembrou dela de novo. E a raiva tomou conta. Mas eu permiti que ele ficasse ali abraçado em mim. Vidrado com os monstros que ganhavam vida na tela da TV. Quando tomava um susto, ele se apertava em mim como forma de proteção. E quando eu não estava olhando para o pirralho, eu o abraçava também, para protegê-lo.

E foi assim, agarrados um no outro, emoldurando a pintura de uma família moderna do século XXI, que o início do fim da vida do garoto chegou. Não demoraria muito até que eu o arremessasse na direção da morte. Eu, pai do meu filho, entregando-o nos braços de seus assassinos.

Ouvi um barulho de vidro se quebrando na cozinha. Meu coração disparou. Só podia ser uma coisa.

Assalto.

O pirralho deu um pulo no sofá e falou baixinho:

— O que foi isso, papai?

— Fica quieto Josué.

Me levantei e fui na direção do som. Eu deveria ter sido mais esperto, deveria ter pego o pirralho e corrido pela porta da frente. Lembra que disse que eu ganhava bem? Minha profissão não é importante aqui, mas isso era de conhecimento de pessoas ruins. E ali estavam elas. E eu fui na direção dos bandidos.

Antes mesmo de eu conseguir ver algo da escuridão da cozinha, dois homens apareceram apontando uma arma para mim.

— Volta pra trás, e sem fazer barulho, senão eu estouro seus miolos aqui mesmo.

E eu os obedeci.

Eles não vestiam máscara e isso fez meu coração pulsar. Eles não nos deixariam vivos, senão poderiam ser pegos. Seríamos testemunhas de seus crimes. E só existe um fim para pessoas que ficam na mesma posição em que estávamos.

A morte.

Voltei para a sala e o pirralho se agarrou nas minhas pernas e afundou sua cabeça em minha coxa.

— Diz pra criança ficar calada também. Senão vocês dois vão virar tinta vermelha no meio dessa sala.

Eles nos amarraram e nos jogaram no banheiro. E foi aí o grande erro deles e a minha oportunidade. Uma gilette para cortar as fitas e a janela para fugir.

E eu deixei o pirralho lá, com a desculpa que eu voltaria com a ajuda. Ele ficou soluçando, pedindo para que eu o levasse com ele. Para que não o deixasse sozinho com os homens maus. Mas eu deixei. Foi a minha chance de me livrar dele de uma vez por todas. E foi isso que eles fizeram.

Quando voltei com a polícia a casa estava vazia. Vazia pois a única pessoal que ainda restava lá era o corpo do pirralho com um tiro no meio da testa, deitado no chão frio do banheiro.

***

Os primeiros dias foram um misto de alegria e tristeza. Me sentia culpado pelo que tinha feito, mas quando lembrava da vagabunda e de que o pirralho me lembrava dela, a culpa ia embora e eu ficava bem. Resolvi me mudar porque não aguentava mais fingir o luto. Um luto que existia apenas por alguns breves momentos. Eu estava livre das lembranças dela. Agora, eu poderia viver minha vida.

Grande engano.

Comecei a adoecer do nada. O cansaço começou a fazer parte do meu dia a dia. As dores de cabeça eram constantes. Aos poucos minha vontade de sair de casa foi diminuindo e no final dos meus dias eu já nem ia mais trabalhar.

Demorei para entender o que estava acontecendo comigo até que um dia ele falou.

— Oi papai.

Eu dei um pulo ao me olhar no espelho e avistar o pirralho montado na minha nuca.

Esfreguei os olhos a fim de tirar aquela imagem absurda da minha frente, mas ela continuava lá.

— Você disse que ia voltar, papai. Por que você me deixou sozinho com os homens maus?

Eu lembro de ter berrado. Sai correndo de dentro de casa e naquela noite eu me embebedei como há muito tempo não fazia. Disse para mim mesmo durante os goles que virava na mesa de um bar que tinha sido fruto da minha imaginação. O cansaço às vezes prega umas peças engraçadas na gente, não é? Talvez fosse a culpa, raciocinei. Talvez no fundo da minha cabeça a culpa de ter abandonado meu filho para a morte tenha criado aquela alucinação.

Mas era real. Ele estava lá. E aos poucos eu fui me acostumando com a presença dele.

— Viu papai, eu não sorrio mais como a mamãe. Agora você pode me amar.

Uma lágrima escorreu do meu rosto ao ouvir aquilo. Ele sabia. Claro que sabia.

— Não fica triste. Vem comigo. Nós podemos ser uma família agora. Só eu e você, passando nossas tardes de domingo juntos, assistindo aqueles filmes de terror e você me abraçando e me protegendo dos monstros.

E os dias se passavam com aquela mesma conversa sobre me juntar a ele. E o cansaço cada vez mais me consumia. No dia do fim da minha vida, eu entendi o porquê. Ele estava se agarrando aquele plano através das minhas forças. Desde a morte dele até ali, era a minha vida que o mantinha vivo também. Eu era a única coisa que ele amava e tinha e por isso ele não conseguiu seguir o caminho para o que fosse que existisse do outro lado após a vida.

E então resolvi seguir as palavras do meu filho.

Eu o amava de volta. Ele não me lembrava mais da vagabunda. Em nenhum aspecto ele se parecia com ela. Agora, todas as suas expressões, seu sorriso e seu olhar eram iguais aos meus. E um sentimento de amor, que eu jamais tinha experimentado, tomou conta de mim.

Subi as escadas do meu prédio na direção do terraço, de forma lenta e arrastada. Minhas forças estavam se esgotando, eu podia sentir. Eu me encontraria com ele e poderíamos ser uma família feliz. Era o que ele queria.

Era o que eu queria.

A noite estava deliciosa no dia da minha morte. A lua, uma bola de neve branca e gigante, nos iluminava na beirada do prédio, como se assistisse a todo aquele espetáculo, esperando pelo ato final. O ventou beijou meu rosto, se despedindo de mim e do meu pequeno.

— Te vejo logo papai. Já separei um filme bem legal para nós assistirmos. Os comentários falaram que ele é bom demais.

Eu sorri.

Ele desceu das minhas costas e se pôs do meu lado. Segurou minha mão, olhou para mim e sorriu.

— Não tenha medo. Não vai doer.

Eu olhei para ele, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto.

— Me desculpe Josué. Papai deveria ter te amado mais.

Ele sorriu de volta.

— Você vai ter tempo para se desculpar, papai. Agora pule.

Eu sorri mais uma vez. Pela última vez.

E pulei.

RESENHA – Apaixonado Coração Apodrecido

Apaixonado Coracao

Autor: Antony Magalhães

Páginas: 125

Onde encontrar: Amazon

Sinópse: Hugo assinou um contrato com a Mors e morreu. A empresa realizou o processo de zumbificação e ele voltou a viver. Quer dizer, teoricamente ainda está morto, mas andando por ai como se nada tivesse acontecido. Está um pouco podre e fede de vez em quando, mas não perdeu quase nenhum pedaço. Um ano após assinar seu contrato, ele já não tem tanta certeza se quer continuar vivo. A vida de um zumbi no Brasil é bem complicada. Os zumbis precisam enfrentar o preconceito e as dificuldades para se adequar na sociedade. A morte de Hugo muda quando faz novas amizades e juntos decidem desvendar crimes envolvendo a morte de outros zumbis já que ninguém mais parece interessado em investigar os crimes.

***

E se a morte não fosse mais algo tão importante na sociedade? E se as notícias sobre alguém que morreu já não fossem interessantes e a mídia quase nem falasse mais nisso? É assim o mundo onde Hugo, Melissa e Will vivem agora.

Uma empresa chamada Mors descobriu como trazer pessoas a vida após sua morte. Agora, quem tem um contrato assinado, não precisa mais se preocupar com o fim de seus dias. Basta assinar o tal contrato, morrer e ser trazido de volta como um zumbi (mas devemos deixar claro que eles não gostam de cérebro).

Hugo vive sua vida (ou morte, ou pós-vida) normalmente e começamos a conhecê-lo melhor no dia em que seu contrato de zumbificação vencerá. Ele está decidindo ainda se o renovará, pois a vida depois da morte não é assim tão interessante. Ele precisa passar vários produtos (criados apenas para zumbis), para dissipar o mau cheiro ou conservar mais sua pele e outras partes do corpo. E o pior é que é difícil arrumar um emprego como zumbi. Muitas pessoas (exceto os abutres, que não perdem tempo para tirar uma foto com um zumbi assim que o avista) não os vêem como algo bom e um novo grupo de preconceituosos surge: os zumbifóbicos.

Mas é nesse último dia que o coração de Hugo volta a pulsar (de forma metafórica), ao conhecer Melissa, uma zumbi que vai atrair os olhos (ou o olho, já que Hugo perdeu um faz um tempinho), e fazer com que o zumbi tome a decisão de assinar ou não a renovação do contrato. Nesse mesmo dia ele conhece Will, e os três se tornam bons amigos.

Mas a vida dos zumbis corre perigo. Alguém começou a matá-los novamente e a polícia não parece se importar muito com os assassinatos. Então os três resolvem dar uma de detetives e tentar achar o assassino.

Vou dizer que eu comprei o livro sem muita pretensão. Gostei da capa e do título e resolvi apostar. E a história ganhou meu coração. Ela é divertida, o romance é gostoso e a parte do mistério também prende demais. Sem falar que a ideia de viver em um mundo onde humanos e zumbis coexistem é espetacular de se imaginar.

Deixo aqui minha recomendação para esse livro que roubou meu coração. Que me deixou feliz ao ler e me deixou triste ao terminar. Já tô com saudade do Will, do Hugo e da Melissa.

 

COMPRE CLICANDO AQUI

CONTO – POR MAL

voodoo

Lembro de ter pesquisado isso na internet. A maioria dos sites diziam que era apenas uma história e que não dava certo. Tive de buscar dentro da DeepWeb para receber o passo-a-passo de como fazer. O site dizia para eu preencher meus dados e enviaram para mim um contrato na qual eu deveria assinar com sangue. Acabei vendendo minha alma.

Eu estava desesperado pelo amor dela. Tentei de tudo: cartas, declarações de amor e surpresas, mas tudo que recebi em troca foram chacotas, tanto dela quanto de seus amigos idiotas. Já que ela não quis ser minha por bem, foi por mal.

Após eu assinar o contrato, as pessoas do site enviaram-me uma caixa com os materiais necessários para criar a boneca dela. Comecei pelo rosto. Costurei barbantes negros na parte onde seria a cabeça da minha amada, como se fossem seus lindos fios de cabelo. Nos olhos, pintei de um tom verde e os seus lábios desenhei com todo o cuidado, tentando representar a perfeição que realmente eles eram. Terminei minha boneca de voodoo em três horas, e ela funcionou.

Enquanto estou aqui sentado minha amada está ajoelhada, com aquela linda boca no meu pau. Cada vez que ela se recusa a atender aos meus desejos eu espeto, jogo longe ou torço a boneca, causando-lhe muita dor, a fim de mostrar que eu mando nela. Se não foi por bem, foi por mal.

CONTO – PRESENÇA

tumblr_nv1ta1ff4Q1sjxvs8o5_500

Os barulhos que ela ouve por toda a casa durante a noite já estão levando-a a beira da loucura. Pior que os sons sem fundamento algum é o momento de ir pra a cama dormir. Sempre que ela apaga as luzes e deita-se na, a sensação de alguém estar do seu lado é estonteante. Ela quase já não dorme mais com medo de que algum dia abra seus olhos e veja o que aquilo realmente é.

Porém nessa noite ela criou coragem. Já estava farta de viver com medo. Tomou um longo banho, vestiu-se e amarrou seus cabelos pretos e lisos em um coque e sentou-se no sofá da sala, esperando que Dona Cassandra tocasse a campanhia. E ela nunca imaginou que aquela espera pudesse ser tão demorada.

Mas naquela noite em que sua mente ansiava por uma resposta e pelo fim daqueles acontecimentos estranhos ela finalmente veria o que estava a atormentando tanto de uns tempos para cá. Mal sabia a pobre mulher que a imagem que apareceria, nebulosa e pouco nítida, andando pela casa, seria a dela própria.

Continuar Lendo O Inferno é na Terra

Ler Chasses

Ler Na Garupa do Besouro

Ler Arrepios

Ler o conto O Gato de Pernas, caveira de prata do concurso Terror Brasil

7 PEDAÇOS DO INFERNO

capa_inferno1

Agora deve fazer pouco mais de um ano que me juntei a comunidade WattPad. Descobri coisas incríveis naquele site e tive feedbacks muito bons em relação aos meus livros. Mas uma coisa que aconteceu de bom mesmo foi ter esbarrado por acaso no perfil do Henrique. Li as histórias dele (fiz resenha do Escuridão no Fim do Túnel aqui no site, caso queiram conhecer mais sobre o autor) e me apaixonei. Porque, apesar de nossa escrita ser diferente, nossos gostos em relação a criação de histórias são parecidas. E de tanto um enviar texto para o outro antes de publicar ou mandar para aquela antologia marota, buscando aquela aprovação final, eis que decidimos criar um livro em parceria.

A temática escolhida (veio do Henrique e eu curti pra cara***o), foi os 7 pecados capitais. O livro tem previsão de lançamento para agosto, então fiquem ligados.

Logo logo uma dose de terror a mais surgirá.

A terra é no Inferno

inferno

Recentemente eu criei um novo livro no WattPad, onde acabei juntando duas histórias diferentes que eu tinha escrito (começado), mas que em um determinado momento pude ver que elas seguiriam para o mesmo caminho. E não é que deu certo? Hoje eu já vejo onde essas duas histórias se encontrarão e virarão apenas uma. E venho aqui convidá-los a conhecer um pouco. Já tem 6 capítulos postados.

Sinópse:

O mundo está chegando ao seu fim mas ninguém reparou. O inferno se fundiu com a terra e os demônios andam disfarçados, usando pele de humanos. Assassinatos, roubos e guerras são causados por esses seres diabólicos e ninguém percebe que o mundo já não é mais como antes. Com exceção de seis jovens que ao completarem dezoito anos, recebem uma revelação: eles foram escolhidos por Deus para uma batalha final a fim de reaver a terra e expulsar as criaturas para seu lugar de origem: o Inferno.

 

Continuar Lendo O Inferno é na Terra

Ler Chasses

Ler Na Garupa do Besouro

Ler Arrepios

Ler o conto O Gato de Pernas, caveira de prata do concurso Terror Brasil

EM UMA VIELA QUALQUER DA RUA AUGUSTA

stranger_in_the_dark_by_vise_de_hartie-d4my88x

 

O céu estava limpo e cheio de estrelas. Marcos acelerava os passos e volta e meia inclinava a cabeça para trás. A sensação de estar sendo seguido o acompanhava já fazia quase cinco minutos.

“Por que fui inventar de querer cortar caminho por aqui?”, pensava enquanto andava cada vez mais rápido.

Na baixa Augusta a iluminação era precária e a segurança mais ainda. Por diversos trechos a única luz que existia lá vinha da grande lua cheia, branca e agourenta, que seguia-o pelo céu, como se previsse alguma desgraça e ansiava por testemunhá-la.

Um som de passos invadiu os ouvidos dele, fazendo seu sangue gelar. Arriscou mais uma olhada para trás, rezando inconscientemente para que não visse nada. Mas viu.

Um vulto negro agora o acompanhava e quanto mais apurava os passos, mas a pessoa que o seguia também o fazia. Começou a correr. Ouviu os passos atrás dele correrem juntos.

“Porra, não, não, não … não faz nem um mês que levaram meu celular. De novo não”, pensava, enquanto corria. Os passos atrás dele estavam mais próximos agora. Gritou por socorro, mas não tinha ninguém por perto para ajudá-lo. O único som em resposta que recebia era o eco de sua voz, como se voltasse para tirar sarro dele. De repente tropeçou em algo e se estatelou no chão. Foi de arrasto rua abaixo e seu queixo foi quem sofreu mais, sendo arrastado por alguns centímetros até que enfim o corpo parasse. Sentiu gosto de sangue na boca.

Tentou levantar-se, mas a pessoa que o seguia subiu em cima dele.

— Que porra cara. — Disse, cuspindo sangue junto com as palavras.

— Quietinho se não quiser morrer. — Teve como resposta.

Olhou para a frente com a esperança de ver alguém vindo em sua direção para ajudá-lo. Não havia ninguém lá. Apenas uma rua escura e desabitada.

— Pega o dinheiro da minha carteira cara, mas não me machuca. Tenho uma filha. — Mentiu, tentando fazer com que o ladrão não o matasse ali mesmo.

Ouviu uma gargalhada como resposta. O homem em cima dele aproximou a boca do ouvido de Marcos e por um instante ficou em silêncio.

A respiração do ladrão era fria e o cheiro do hálito logo tomou conta das narinas do rapaz. Não era um cheiro ruim, mas era um odor que ele nunca tinha sentido antes. Palavras ecoaram em sua mente: “Morte”.

— Eu não quero dinheiro. — Sussurrou o homem, rindo baixinho e logo em seguida passando sua língua pela orelha de Marcos, em movimentos lentos e circulares. A língua era gelata, tal qual a respiração.

— Só quero um pouco do seu sangue.

— Que porra … — Tentou dizer enquanto fazia força para se desvencilhar do homem. Foi inútil. Com apenas um leve empurrão, foi jogado de volta ao chão.

O homem riu novamente. Levou a cabeça de volta ao ouvido de Marcos e falou:

— Se você for bonzinho eu te deixo viver. — E lambeu a orelha dele novamente, agora descendo até o pescoço.

— Cara, eu não curto isso. Tudo bem se você curte. Me deixa ir por favor …

O homem empurrou a cabeça do rapaz com força em direção ao chão, fazendo-a chocar-se bruscamente.

— Mandei ficar quieto.

A pancada deixou-o tonto. Sentia sua cabeça úmida. “O desgraçado cortou meu rosto”.

Ia morrer ali, jogado na sarjeta, em uma viela imunda da rua Augusta. Quanto tempo levaria até que alguém encontrasse seu corpo? Ou pior, quanto tempo levaria até que sua família soubesse de sua morte? Morava sozinho em São Paulo fazia três anos e não entrava em contato com os pais frequentemente. Sentiu lágrimas saindo dos olhos. O sonho de ser editor e tradutor seria interrompido, e faltava tão pouco. Fechou os olhos, aguardando a morte abraçá-lo e levá-lo para sabe-se lá aonde.

Então algo perfurou seu pescoço. No começo foi doloroso, mas segundos depois tornou-se tranquilizador. O que era isso tudo? Sentia que o homem estava sugando algo. Seu sangue? Não podia ser.

O sujeito ficou fazendo isso por alguns minutos até que Marcos desmaiou. Enfim a morte. “Mas que forma estranha de morrer”, pensou antes de ser tomado pela escuridão total.

 

***

 

Quando abriu os olhos novamente, viu o homem agachado em sua frente. Tentou levantar, mas a força o abandonou por completo.

— Não se esforce. — O homem falou, com grandes olhos castanhos que sorriam para Marcos.

O sujeito olhou no relógio e depois passou a mão pelo cabelo e então disse:

— Daqui a 6 horas o sol vai aparecer nesse céu. Se não quiser morrer, evite-o.

Marcos tentou falar, mas as palavras saíram embrulhadas.

— Vampiro?

O sujeito na sua frente sorriu, agora de forma afável.

— Sim garoto. É o que sou e é o que você será. Faça o que eu disse. Vá para casa, feche as cortinas e durma durante o dia. Quando a noite chegar, eu te encontro pra conversarmos mais. Você é meu agora.

Ele sorriu para o rapaz que ainda se encontrava deitado no chão. O que Marcos viu foi dois pares de caninos avantajados, saltando para fora da boca do homem. Deu as costas e se foi, da mesma forma sorrateira que aparecera, sem dizer mais nada.

***

Mais Contos do Autor no WattPad

 

CONTO – Queda Livre

 

Quanto tempo um corpo leva para cair de um prédio de 20 andares, até encontrar o chão? Não pergunto o tempo verdadeiro, aquele que a física consegue facilmente calcular. Nem o tempo contado no relógio do senhor de cabelos grisalhos, que andava distraidamente, olhando para o alto, contemplando a arquitetura dos prédios antigos daquela cidade, na qual ele só foi parar porque o motor do seu carro estragou e ali era o local mais próximo onde poderiam consertá-lo.

Minha pergunta é direcionada à pessoa detentora do corpo que está em que livre. O corpo cai descontroladamente, jogado por vontade própria ou obrigado por um outro alguém. O tempo é diferente caso ele tenha se jogado? Ou é o mesmo, caso alguém o tenha empurrado?

O corpo cai, cai, cai … e continua caindo. Quanto tempo leva? Só o dono dele poderia nos contar. Mas ele está morto (e caindo).