8 – O Personagem da História

Quando Márcia cruzou a fronteira da cidade onde encontrou muitas viaturas de polícia e bombeiros, Marcos colocou a caneta de lado, orgulhoso de finalmente ter escrito a palavra fim.

E estava mais leve com o desfecho. Não era um final definitivo, por mais que parecesse. Sua personagem poderia viver novamente e estava feliz com isso. Era seu vilão, mas de certa forma não era um vilão ruim. Ela tinha os seus porquês e ele a respeitava por isso.

Olhou para fora e a paisagem ainda era a mesma. A cortina de neve descia sobre Lago Negro cobrindo qualquer visão. Ainda na cadeira, Marcos se espreguiçou e soltou um longo bocejo. Olhou no relógio e tomou um grande susto. Já passava das duas da manhã. Tinha perdido a noção de tempo, preso nas amarras da sua criação. Sua obra prima. De longe, o livro mais intenso que já criou um dia na sua carreira de escritor amador.

Levantou e levou as mãos à maçaneta da porta e ficou confuso ao verificar que estava trancada. Quando tinha feito isso? Não se lembrava de ter levantado para trancar a porta.

Deu de ombros e virou a chave. Caminhou até o quarto da mãe e ficou alarmado ao perceber que a cama estava vazia. Desceu as escadas e também não a encontrou lá. Foi até a cozinha e bebeu um copo de água enquanto pensava onde ela poderia ter ido. Era dia de semana. E mesmo que fosse sexta ou sábado, raramente ela saia de noite.

Lavou o copo e colocou-o no escorredor. Se dirigiu até a sala e quando abriu a porta, a menina estava do lado de fora, o aguardando.

***

Assim que Márcia saiu, ela sentiu algo estranho. Sentiu como se um novo fio a conectasse a alguém naquele lugar que ela acabou de destruir. E era uma conexão diferente. Não era o ódio e nem o amor. Era maior que os dois. Era como se seu criador a chamasse. Como se ele clamasse para que ela o encontrasse e que os dois pudessem conversar a respeito de sua origem. De sua natureza.

Ela seguiu aquele fio invisível. Passou por casas em chamas e por corpos no chão. Algumas pessoas ainda encontravam-se vivas, correndo de um lado para o outro em busca de uma nova vítima para batalhar até a morte.

Cruzou novamente a loja onde pegara sua primeira vítima.

Cruzou uma casa onde o corpo de uma homem e uma mulher pendiam pendurados por uma corda. Talvez tomaram aquela decisão ao perceber o caos que se instaurou na cidade. Porém, se os pobres soubessem que se não foram afetados, não morreriam naquele dia, jamais teriam feito tal ato. Ela lamentou por isso e disse a si mesma que da próxima vez os avisaria. Teceria mais uma rede, a mesma que criara os loucos e insanos, para unir os puros de coração. Para que vidas inocentes não fossem tomadas em vão.

Uma lágrima escorreu de seu rosto com a cena e mais uma vez ela foi pega de surpresa. Que sentimento era aquele que apertava seu coração? Tinha muito que aprender ainda sobre essas coisas. E o fio que ela seguia talvez esclarecesse algumas dessas coisas.

Chegou em frente a casa dele. Seu coração apertou. Estava na frente da fonte de suas respostas. E ela tinha tantas perguntas. Será que ele saberia respondê-las? Pensava que não todas. Talvez ele nem soubesse dela. Quem sabe não a criou por engano? Não importava. Estava ali e jogaria a sorte. E se ele estava vivo ainda, era uma boa pessoa. Um ser humano digno do novo mundo.

A luz de uma janela no segundo andar estava acesa. Ela ficou ali embaixo, com os pés enterrados em um metro de neve, observando aquele vão de vidro iluminado. Seu coração bateu mais forte.

Forçou os pés a se moverem, mas eles pareciam pesar mil quilos cada um agora. Ela caminhou devagar. Quanto tempo levou até andar aqueles dois metros até a porta, não sabia. Podia ter levado um minuto ou uma hora. E se ele tivesse o poder de apagá-la, assim como teve o de dar vida? E se ao descobrir sobre o que criou, perceber o monstro que trouxe para aquele mundo, ele a matasse? Porque ela sabia que as pessoas não a viam como algo bom. Para os humanos, ela era uma ameaça. Ela era a morte.

Pensou em virar a maçaneta e entrar, mas algo na sua mente pediu para que esperasse. E assim ela fez. Ficou parada por minutos na frente daquela casa desconhecida, com milhões de pensamentos percorrendo sua mente. Esperou até que ouviu passos. Seu coração ameaçou pular garganta afora. E então a porta se abriu.

***

Marcos levou um susto e deu um pulo para trás quando viu do outro lado uma pequena menina, de pés descalços e com apenas um vestido, sem nenhuma roupa de frio. Foi pego de surpresa e não estava esperando dar de cara com alguém ali do lado de fora. Ainda mais de madrugada.

Ela sorriu para ele.

Ele sorriu para ela.

O que era aquela conexão que estava sentindo em relação àquela estranha? Parecia que ele a conhecia.

— Está perdida?

— Há muito tempo.

Ele não respondeu. Ficou intrigado com as palavras dela.

— Desde a tempestade?

— Bem antes dela.

— Quer entrar? Podemos tentar ligar para seus pais.

Ela entrou.

— Espere aqui.

Marcos subiu as escadas e buscou no quarto de sua mãe um casaco quente que pudesse aquecer a pequena menina. Desceu as escadas correndo e entregou a peça de roupa para ela.

— Toma, você deve estar com frio.

Ela aceitou e se vestiu com ele, sorrindo de orelha a orelha.

Mais uma vez aquela sensação de amor inundou seu coração. Que estranho sentir-se assim com uma estranha. E essa sensação de conhecê-la muito bem era ainda mais estranha.

— O que quis dizer com bem antes da tempestade?

— Não saia correndo, por favor, mas acho que você me criou.

Ele riu, lembrando-se da época em que era criança. A imaginação na infância é uma coisa fantástica e por um momento ele sentiu uma nostalgia da época em que só se preocupava em ler seus livros e assistir seus filmes preferidos.

— Eu não tenho poder de criar ninguém, infelizmente.

Ela levantou-se e foi na direção dele. Pegou as mãos do garoto em suas e então ele viu. Sua história passando por sua cabeça. Da mulher gorda presa em sua caverna, dominando uma cidade e devorando humanos para que pudesse expandir. Para que pudesse purificar o planeta. Para que pudesse dar uma nova chance a raça humana.

Marcos se soltou das mãos dela e deu alguns passos para trás, quase caindo de bunda no chão ao tropeçar na mesinha de centro da sala.

— Impossível.

— Eu também pensava isso. Mas eu senti.

— Mas essa história só ficou pronta hoje. É impossível você ser ela.

A menina começou a chorar, mas eram lágrimas de felicidade.

— Ó senhor, obrigado por ter me criado e me dado esse papel tão importante.

Ele não respondeu. Seu rosto virou uma mistura de confusão e medo. E ela percebeu.

— Não tenha medo, por favor. Eu só quero respostas.

O garoto desabou no chão.

— Receio não ter. Acabei de descobrir que dei vida a um personagem …

E então um clique soou dentro de sua mente.

— O que você faz aqui em Lago Negro?

Ela sorriu mais uma vez e seus olhos brilharam junto. Por um instante ele pôde jurar ter visto chamas por detrás das pupilas da menina.

— Destruindo os que não merecem viver no novo mundo. Como o senhor me ordenou.

E então ele lembrou de sua mãe. E então a neve veio na sua mente. E o silêncio da noite. Um arrepio percorreu seu corpo. O medo invadiu seu ser.

— O que você fez?

— Matei e deixei viver quem merecia. Não foi pra isso que fui criada?

Marcos começou a se arrastar para trás com as mãos e chocou-se com a parede. Suor brotou em sua testa e escorreu por seu rosto. Ele deu vida a um monstro. Um ser malígno. Um ser destrutivo.

— Onde está minha mãe? — murmurou, mais para si do que para a convidada.

Mas ela respondeu.

— Receio que não viveu.

— Você não pode fazer isso. Não pode matar os outros a própria vontade. Você é uma história, e as histórias têm liberdade para isso porque são ficção. Nenhum inocente morre lá. É tudo ficção — berrou, com lágrimas escorrendo rosto abaixo ao ouvir as palavras da garota. — Se foi eu que te criei, exijo que você pare tudo isso. Suma, se exile, volte pra sua caverna. Deixe os humanos em paz.

Ela não falou nada. Ficou para onde estava. Seu rosto estava contraído. As palavras dele a machucaram. E o que ela sentiu ao encontrar seu criador se transformou em amargura. Foi rejeitada. Acreditava que tinha achado mais do pote do amor. Se enganou.

Levantou-se e foi na direção da porta. Antes de sumir em meio a cortina de neve, disse:

— Que pena que pense isso de mim, meu senhor, meu Deus e meu criador. Eu não tenho coragem de tirar sua vida e nem sei se existiria mais, caso fizesse. Porém, ainda vamos nos encontrar mais uma vez. Nesse mundo ou em outro. E espero que suas palavras da próxima vez sejam de desculpas. Histórias podem ser mais do que ficção. E acredito que no fundo você saiba disso também.

E então sumiu. Horas depois a neve se foi também. E da cidade que um dia existiu, apenas a casa de Marcos permaneceu de pé. Quando os bombeiros e policiais chegaram, encontraram apenas cinzas e neve derretendo.

E aquela casa intacta.

Quando abriram a porta, encontraram ele no mesmo local que estava quando a menina deixou o lugar. Mas palavras não saiam de sua boca. Reação não existia em seu corpo. Estava em choque. E ficaria assim por muitos anos. Talvez até o fim de sua vida.

Ela se foi e espera pelo próximo chamado. Pelas próximas vítimas e pelo reencontro. De seus olhos, lágrimas escorrem feito uma torneira aberta que nunca cessa. Pela neve que a acompanha, uma trilha se forma atrás dela em meio as pegadas de seus pés. A marca da amargura e da rejeição em forma de água expelida por seus olhos.

Ela chora.

Ela caminha.

FIM.

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