7 – A Fuga da Cidade

O banho durou alguns minutos e Márcia deixou a menina debaixo da água quente e aconchegante por mais tempo do que precisava. Percebeu que ela estava gostando da sensação de aconchego, do calor e do movimento da espuma de banho que a limpava.

Volta e meia a menina sorria e a mulher sentia-se a pessoa mais sortuda do mundo. Sabia que no outro dia teria de encontrar os pais dela, mas só de provar um pouco da sensação de ser mãe, de cuidar de uma criança, já era suficiente para o momento. O amanhã era outro dia e ela apreciaria aqueles instantes o máximo que pudesse.

Tirou a garota do chuveiro e a secou. Levou-a até seu quarto onde revirou no guarda roupa atrás de peças quentes. Tudo era grande demais para a menina, mas acreditava que isso não a incomodaria. Estaria quente e segura dentro de uma casa.

E então foi desperta do seu casulo de amor e paixão pelo marido. Ele entrou correndo dentro do quarto, abrindo a porta com um chute.

— Tá louco Bruno? Olha o que fez com a porta.

Mas ele não respondeu. Encarou a mulher com ódio no olhar e com a boca espumando.

— O que você tem?

O homem deu um passo para a frente.

— Se afasta daqui seu babaca. Você não vai fazer mal à essa garota.

E então pela primeira vez desde que entrara na casa, a menina falou.

— Não é a mim que ele quer fazer mal. É a você.

A mulher a encarou com dúvida e receio.

— Como assim?

A menina pegou a mão da mulher com ternura.

— Não se preocupe. Não vou deixar que ele te machuque.

A voz dela era carregada de uma forma tão adulta que por um momento Márcia se lembrou daquele filme onde os pais adotaram uma menina que no final descobriram ser uma mulher bem mais velha que parecia uma criança. E pela primeira vez desde que a encontrara, sentiu medo. E a menina também sentiu o medo dela.

— Não fique assustada.

E então envolveu a mulher em um abraço.

E como num passe de mágica Bruno deu as costas as duas e saiu correndo da casa.

— O que foi isso? Por que ele desistiu?

— Eu não sou uma criança. Sou algo além disso que nem eu entendo direito ainda. Minha natureza é limpar a terra das pessoas ruins e poupar as boas. E você me mostrou o que é o amor puro. O amor ao próximo.

Márcia estava incrédula e começou a se afastar da menina. Ela sorriu.

— Eu entendo seu receio, mas tenha a certeza que você viverá hoje. E você será mãe, como tanto deseja. Esse seu sentimento precisa ser compartilhado e espalhado. E eu tô aqui pra te salvar.

A menina pegou ela pela mão mais uma vez e a conduziu para fora da casa. Marcia não sentia frio, mesmo sabendo que a temperatura agora deveria estar abaixo de zero.

Se assustou com a cena que os olhos conseguiam enxergar quando chegava muito próximo. Quase tropeçou em um corpo estendido sem vida no meio da estrada.

— Oh meu Deus, o que aconteceu aqui?

— É a limpeza. Eles eram maus. Não mereciam viver. Seu marido também era. Você nunca se perguntou o porquê de nunca ter engravidado?

Márcia parou os passos.

— Como assim? O médico disse que meu útero era muito fraco para ter um filho.

— Ele mentiu e ajudou seu marido com um remédio abortista. Eu li tudo isso na mente dele. Ele não desejava ter um filho e foi a maneira que encontrou para dar um fim nos seus desejos maternos.

A mulher começou a chorar, lembrando-se das três crianças que perdeu e dos três filhos que poderiam estar com ela caso aquilo não tivesse acontecido. Podia acreditar na menina? De certa forma achava que sim. Mesmo que tudo ali parecesse uma história de terror e irreal, acreditava nas palavras dela.

— Então quer dizer que eu posso ser mãe — foi tudo que conseguiu dizer e depois as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto e colidirem com o chão gelado.

A menina a abraçou mais uma vez e Márcia sentiu novamente aquela sensação de amor.

Uma claridade começava a tomar conta de vários pontos e ela conseguia ver através da cortina de neve onde o local tornava-se mais claro.

Fogo.

— Oh meu Deus, a cidade vai queimar. Tudo vai ser reduzido a pó.

A menina pegou-a pela mão e a levou para dentro mais uma vez.

— Amanhã de manhã só restará as cinzas desse lugar. Os restos dos moradores poderão ser encontrados junto com as cinzas das casas e das árvores, mas acho que ninguém jamais procurará por isso. Será um mistério não resolvido e tenho certeza que você não falará sobre ele. Preciso chegar do nada e partir da mesma forma.

E então uma última provação passou pela cabeça da menina. Seria a prova final, para ver se a mulher realmente era tudo aquilo que aparentava.

A janela da sala se estilhaçou e uma mulher ensandecida se pôs para dentro. A mesma espuma que escorria pela boca do marido de Márcia estava presente na estranha.

— É uma das suas também?

A menina negou.

A mulher avançou na direção da criança com ódio no olhar e as mãos estendidas tentando buscar o pescoço dela.

Márcia foi mais rápida do que jamais pensaria que poderia ser. Os reflexos maternos estavam lá. Antes que a estranha pudesse alcançar sua protegida, um vaso de cerâmica a acertou na cabeça, deixando-a sem vida no chão.

A mãe de Marcos estava morta.

Márcia tinha passado no seu teste final, sem nem saber.

***

— Tem certeza que não deseja vir comigo? Esquecer da sua natureza e desfrutar de uma vida livre de toda essa matança?

— Tenho. Minha natureza me diz que é isso que devo fazer. Ele me criou para isso.

— Quem é ele? Deus?

— Uma espécie de Deus, sim. Talvez um enviado do próprio que vocês chamam de Deus. E eu sinto que ele está aqui. Preciso ficar e talvez encontrar algumas respostas.

A mulher assentiu. Antes de entrar no carro, envolveu a menina em seus braços por longos segundos e então beijou-a na testa.

— Então se cuida. E obrigado por tudo.

— Vá em paz. Quem sabe a gente se encontre por aí mais uma vez e você me apresente seus filhos verdadeiros. Existem outros mundos, Márcia, e talvez eu possa lhes apresentar quando tudo estiver completo aqui.

A mulher sorriu. Entrou no carro e virou a chave na ignição. Não sabe como conseguiu sair dali em meio aquela cortina branca e ruas cheias de corpos, mas no fundo sabia que a menina a guiava. Estava feliz.

Finalmente a esperança da maternidade se fazia presente. Ela poderia ser mãe, e seria em um futuro não muito distante. Seria mãe dos seus e dos que foram abandonados pelos pais. Seu amor era tão grande que não se contentava apenas com suas crianças. Precisava mostrar as que foram deixadas de lado que a vida podia ser boa.

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