6 – Enlouquecidos

Então aquilo era amor. Agora, mais do que nunca, tinha a capacidade de julgar os escolhidos e os condenados.

Fechou os olhos por alguns segundos, enquanto a mulher passava uma esponja quente por seu corpo, e os avistou.

Encontrou todos os maus da cidade dentro de sua cabeça e os ligou como uma teia de aranha. E então o mau foi instaurado. E eles próprios acabariam uns com os outros.

***

Marcos está sentado mais uma vez na sua mesa em frente ao seu caderno aberto, mas a caneta em sua mão não está criando palavras. Ela se move de um lado para o outro, pelos movimentos dos dedos do rapaz.

Ele encara o branco que se encontra do lado de fora da cidade, tentando fazer alguma ligação com sua história. Mas não encontra. Não tem neve lá.

O vento bate contra o vidro, agora fechado, e o barulho é gostoso. É inspirador. Ele baixa os olhos para o papel e continua de onde parou. Sobre a mulher gorda na caverna.

Ele ainda não compreende seu sentimento em relação aquele personagem, e teme o fim dela. Não sabe ainda se a criatura é boa ou ruim. As vezes ele concorda com as ações dela, as vezes não.

Suspira, mas a mão continua a escrever. As palavras parecem fluir de seu inconsciente de forma automática. Nem precisa pensar. Só escrever.

Ele nem percebe os barulhos no andar debaixo e nem os sons de berros do lado de fora da casa. Está em transe.

Sua consciência diz para que ele tranque a porta e ele nem se pergunta o porque. Apenas se levanta e faz. Depois volta para a mesa e continua a escrever. Se continuar nesse ritmo, logo terá um fim para sua criação. E ele teme o fim. O fim dela, não dos outros. Ele a ama?

Seus ouvidos não captam o barulho de batidas na porta. Uma bolha anti-ruído para envolver o garoto. As batidas continuam e depois cessam. Quem quer que quisesse entrar lá, desistiu.

E agora se encontra na rua. Sua mãe está enlouquecida. Assim como os outros moradores. E ele nem percebe que jamais a verá de novo. Nem com vida, nem seu corpo.

***

Um cenário de guerra se instaurava do lado de fora das casas de Lago Negro, em meio a cortina branca da nevasca.

A mãe de Marcos saiu correndo escada abaixo, após tentar abrir a porta do quarto do filho a ombradas. Não entendia o porquê de tanta raiva, mas queria socar o filho até abrir a cara dele em duas partes e ver o sangue jorrando pelo rosto dele.

Mas ela amava o garoto. Por que desejava aquilo?

Não fazia ideia. Só sabia que de um momento para o outro, uma raiva descomunal tomara conta de seu ser.

Percebendo que não conseguiria por a porta abaixo, desceu as escadas correndo e se jogou para fora da casa, procurando por alguém para bater.

E achou várias pessoas que já se encontravam brigando. Alguns corpos caídos, sem vida, jaziam no chão.

E ela chegou contra os que ainda estavam de pé, de punhos fechados e desferindo socos.

Seus pulsos doíam com a força com que socava rostos e corpos. Seu rosto doía com os socos e pontapés que recebia.

Sangue pintava a neve branca.

Gritos ecoavam pelas ruas da cidade insana.

Sentiu vontade de morder. De provar da carne humana e de sangue quente. Abriu os punhos e a boca e mordeu.

Outros fizeram o mesmo.

Só ela ficou viva daquele grupo da sua rua.

Saiu correndo em busca de mais.

E tinha mais ainda.

Eles lutariam sem nem saber o porque durante algumas horas.

E enquanto isso, a menina estaria amparada pela mulher no aconchego quente da casa,

envolvida pelo manto do amor.

“Se matem. Dêem fim as suas miseráveis vidas. Vocês não merecem viver” dizia ela na mente dos moradores. Era um truque que aprendera há muitos anos. O controle mental era uma de suas armas desde o início da sua criação.

E assim ela ficou enquanto a cidade era reduzida a poucos sobreviventes ensandecidos. Ansiosos por sangue e por carne.

E ela sorria, mas não pela carnificina. Sorria pelo amor da mulher.

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