5 – Um Resgate

O desejo da maternidade fazia parte de Márcia desde muito cedo, quando ganhou sua primeira boneca de presente dos pais. Não sabia dizer o porque aquela vontade de ser mãe existia, mas tinha plena certeza de que tinha nascido para aquilo.

    Mas a vida parecia não concordar e ela e o marido falharam em inúmeras tentativas.

    Seu útero era fraco e não aguentava mais do que três meses de gestação.

    Já tinha perdido três bebês e sempre no mesmo período. Três meses.

    Márcia chorava escondida entre os corredores da casa. As vezes a tristeza era tanta que tinha de se trancar no banheiro, com o chuveiro ligado, para abafar o som dos soluços. O marido odiava quando ela chorava. Ele não tinha pretensão de ser pai e ela sabia que ele dava graças a Deus por a mulher não conseguir parir um filho.

    De uns tempos para cá ela decidiu que desistiria da ideia de ter um filho do próprio sangue. Os médicos tinha dito que era impossível. Que jamais conseguiria. Mas ela ainda queria ser mãe e a adoção começou a fazer parte de seus pensamentos diários.

    Porém Bruno discordava. Não queria ser pai e foi pego de surpresa com a nova ideia da mulher.

    — Não vou trazer alguém que não é do meu sangue pra dentro dessa casa. Pode esquecer.

    — Mas eu quero ser mãe. Eu preciso.

    — Você precisa é lavar aquela louça que tá suja faz um dia na pia.

    Márcia virava a cara e ia para o banheiro. Não alongava as discussões e a cada dia que se passava, pensava em fazer aquilo sozinha. Pedir o divórcio, dividir os bens e criar seu filho da melhor maneira possível.

    Existiam tantas crianças abandonadas por aí. Não entendia como um ser humano era capaz de fazer algo desse tipo, mas quem sabe Deus não quis que ela fosse mãe biológica justamente por isso? Para ajudar e amparar os que foram deixados para trás. Para mostrá-los que a vida ainda podia ser boa. Que nem todos eram maus daquela forma.

    Era diretora de uma empresa de tecnologia na cidade vizinha. Seu salário era muito bom e não necessitava do marido para aquilo.

    Ela o amava ainda? Achava que sim. Porém a vontade de ser mãe era maior que qualquer amor. E se o preço para aquilo fosse abandonar a vida de casa, que assim fosse.

    Quando a nevasca chegou ela estava sentada na poltrona da sala, lendo um de seus livros sobre maternidade. Estava mais preparada que qualquer outra mãe em qualquer lugar do mundo pudesse estar. Já lera tanto
sobre o assunto que às vezes sentia que tinha um filho. Mesmo sabendo que era apenas fruto de sua imaginação. Tinha dias que se pegava conversando sozinha, como se estivesse falando com alguma criança. Algumas dessas vezes até acreditava que estava ficando doente da mente de tanto que ansiava por aquilo.

    O livro daquela noite era um álbum de recortes que ela mesma montara, cheio de recortes de revistas e livros, com crianças e seus pais formando uma família. Era seu álbum dos sonhos. O álbum que desejava ser realidade.

    Não tinha saído para ver a neve. O marido encontrava-se do lado de fora e às vezes chamava por ela para que juntos apreciassem o fenômeno inédito que acontecia em Lago Negro. Porém ela não o atendia.

    Ele entrou depois de alguns minutos do lado de fora, avisando que a neve tinha ficado mais intensa e o vento mais frio e quase insuportável, mas ela nem deu atenção. Seus olhos contemplavam as imagens e as crianças sorridentes das fotos.

    Porém um choro tirou-a do transe. Um choro de criança. Seu coração disparou de dentro do peito. E se uma criança estivesse perdida em meio aquela nevasca? Perdida dos pais e entregue a própria sorte.

    — Você ouviu esse choro?

    — Não ouvi, mulher. Tá imaginando coisa de novo?

    Márcia não respondeu.

    Ficou sentada, atenta aos sons que vinham do lado de fora. E o choro ecoou mais uma vez.

    — Tenho certeza que tem uma criança chorando. Perdida lá fora.

    — Mulher, para com isso. Você vai ficar louca com essa fixação por criança e maternidade.

    — Cala a boca Bruno.

    O homem congelou. A mulher nunca falava daquela forma com ele. Nem quando ele a tratava de forma ríspida e grossa.

    Ela levantou-se do sofa e se enrolou em sua coberta. Abriu a porta e andou em meio ao branco que era toda a nevasca do lado de fora.

    O marido ficou parado, perplexo com a mulher.

***

    Márcia não conseguia enxergar nada. Seus olhos avistavam apenas a cor branca e nenhuma forma. Nem sabia mais a direção da sua casa. Estava perdida no meio da nevasca (mesmo que a alguns metros da porta de casa), mas não sentiu medo. Sua natureza materna gritava mais alto.

    — Tem alguém aí?

    Nenhuma resposta. Ficou parada, aguardando mais uma vez pelo choro.

    E ele veio.

    Ela seguiu o som.

    — Continue falando para que eu possa ir até você. Não consigo ver nada, mas posso seguir o barulho.

    E a criança atendeu. Continuou chorando até que Márcia a encontrou.

***

    Ela estava do lado de fora da casa da mulher e podia sentir o anseio dela. Queria um filho. Precisava compartilhar seu amor com uma criança, e isso a entristeceu (e a pegou de surpresa). Achou que tinha sido atraída até lá pela maldade, mas foi o contrário. Encontrar o bem também fazia parte de sua natureza? Agora acreditava que sim.

    Forçou um choro para testar a mulher.

    E para sua surpresa, ela veio em busca da criança perdida. Dela.

    Ouviu as palavras para que continuasse chorando. E assim fez. Precisava entender mais sobre aquele novo sentimento. Achava que só tinha experimentado uma parte do amor em relação aos seus filhos. Mas aquele ali era diferente. Era mais forte e mais intenso.

    E então a mulher chegou. Abaixou-se em sua frente e a abraçou.

***

    — O que faz aqui perdida, criança? E ainda só de vestido. Vai pegar uma pneumonia assim.

    Márcia a abraçou e depois pegou-a no colo. Não sabia onde estava sua casa, mas por um milagre (ou ajuda da menina, ela pensaria depois), encontrou a porta ainda aberta.

    Bruno estava sentado no sofá assistindo TV, como se a mulher não tivesse se embrenhado no meio da tempestade. Sem se preocupar que ela pudesse morrer congelada, perdida sem conseguir retornar para o aconchego do lar.

    Quando ela entrou para dentro de casa, deixou o controle escorregar da mão.

    — Que porra é essa Márcia? Quem é essa menina?

    — Era ela que estava chorando, seu sem coração. Eu falei que tinha ouvido choro de criança.

    — Márcia, coloca essa menina pra fora já. Não quero problemas com policia achando que sequestramos o filho de alguém.

    — Tá louco Bruno? Tá achando que ela é um animal pra ser abandonado do lado de fora com essa tempestade toda? Olha só pra ela. Ela ia morrer congelada lá fora.

     — Isso é problema dos pais dela, não nosso. Bota ela pra fora já.

    — Cala a boca e vai assistir sua TV. Assim que essa nevasca passar vou ligar para o delegado avisando que encontrei uma criança perdida.

    — Márcia, não me desafie.

    — Senão o que? Vai começar a me bater agora?

    Bruno não disse nada. Encarou a mulher com os olhos flamejantes, tentando impor algum medo, até que se deu por vencido.

    — Que seja. Mas eu não vou chegar perto disso aí nem fodendo. Sua responsabilidade.

    A mulher subiu as escadas ainda com a menina em seus braços. Daria um banho quente nela e depois procuraria algo mais quente ainda para ela se vestir.

    Enquanto seus pés caminhava na direção do banheiro, pensamentos cruzavam por sua cabeça. Como ela se permitiu casar com um homem tão insensível e sem coração feito aquele, que tratava uma criança desamparada como um animal qualquer. E mesmo um animal deveria ser abandonado do lado de fora de um lar quente em uma noite como aquela.

    Seu coração estava mesclado de ódio e amor agora.

    E a menina sentia aquilo. Mas era um ódio bom. Um ódio que não a obrigava a levar a mulher consigo. Estava descobrindo mais sobre o amor, e agora entendia que ódio e amor às vezes andavam juntos. Às vezes se complementavam.

    Durante todo o banho ela não parava de encarar a mulher, tentando entender tudo aquilo. Essa descoberta atrasaria um pouco seus planos, se ela não tivesse uma carta nas mangas.

    Enquanto a mulher cuidava da menina, a cidade enlouquecia. A neve não era mais o perigo. Os moradores eram.

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