4 – A Nova Moradora

Saiu da loja pelo buraco aberto por sua vítima. Ouvia a voz dele dentro da sua cabeça, implorando por misericórdia. Mas ela não tinha pena. O que estava feito, estava feito.

Passou pelo carro abandonado do homem, ainda com a porta aberta, esperando por seu condutor que nunca mais voltaria.

Voltou a sua forma natural de garotinha. Afinal, sua próxima vítima clamava por isso. Por uma criança.

Seus pés marcavam seu caminho pela neve que agora ficava cada vez mais densa e alta nas ruas daquele lugar, denunciando de onde o mal tinha vindo e para onde ele ia.

Passou por famílias que se divertiam em meio aquela confusão, incapazes de pensar que o fenômeno fosse algo relacionado com o sobrenatural. Que a neve trazia a morte e o fim de suas vidas. Não sentiu-se triste. Tristeza não fazia parte de sua natureza. Apenas selecionar os bons e os ruins. A nova terra estava sendo formada e era só isso que a preocupava. Era isso que a movia.

Ninguém pareceu prestar atenção na pequena garota, coberta apenas por um vestido em meio a todo aquele frio. O termômetro que a poucas horas marcava 35º agora exibia uma temperatura de 2º. Mas ela não tremia. Se alguém tivesse olhado na direção da rua e visto a menina que parecia transitar sem nenhum problema, de pés descalços e quase sem roupa, talvez tivesse pensado que algo estava errado. E talvez tivesse pego o carro e ido para longe da cidade a tempo de salvar sua vida (ou adiar sua morte). Porém ninguém o fez. E ela seguia o chamado da mulher.

A neve começou a intensificar assim que os passos dela percorriam a extensão das ruas. As pessoas começaram a se assustar com o vento que aumentava e com o frio que agora machucava. Os dentes dos moradores agora não mostravam um sorriso, mas chocavam-se um contra o outro, advertindo seus donos de que ali fora não era mais aconchegante e seguro.

Pouco a pouco os pátios das casas começaram a ficar vazios mais uma vez.

A nevasca aumentou e pelas janelas os moradores apenas avistavam uma imensidão branca. Nem a rua e as árvores podiam ser avistadas agora.

A diversão tinha acabado e o medo agora tomava conta da atmosfera de Lago Negro.

E ela sentia o medo.

E ela sorria.

E caminhava na direção do chamado da mulher. Da vítima. Do alimento.

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