Capítulo 2 – A Chegada da Neve

Marcos encontrava-se em seu quarto, preso nas folhas de seu caderno onde escrevia seu novo romance. Decidira por usar papel e caneta depois de frustradas tentativas em fazer aquilo direto no computador. O dispositivo eletrônico era cheio de tentações, que insistiam em puxar sua atenção para fora do mundo em que tanto se esforçava para criar, como os tentáculos dos monstros de Lovecraft puxavam suas vítimas, tornando-se quase impossível de se desprender.

E estava dando certo.

Pelos cálculos dele, já passara da metade da história. Seus personagens agora eram coesos e bem definidos. Ele próprio tinha receio de lá para perto do final ter de acabar com alguns, que durante todo aquele processo, foram cativando o coração dele e se tornando quase um amigo ou um irmão.

Um personagem em especial.

O quarto estaria engolido pelo escuro se não fosse pela fraca luz da lua que entrava através da janela e pela lâmpada da luminária de mesa que emitia raios amarelados para cima do papel que servia como objeto de criação dele.

Ele estava tão preso em seu mundo, passando a ponta da caneta sobre a superfície de papel, formando letras, palavras e então frases que interligavam todo o enredo de seu mundo, que nem percebeu os primeiros flocos de neve caindo do céu e chocando-se, quase inaudíveis, com o chão quente de Lago Negro.

Quem pusesse o ouvido perto do asfalto naqueles primeiros minutos ouviria o barulho dela derretendo quando encontrava o calor do local em que tocava. O mesmo barulho que uma superfície fervendo emite ao jogar-se água fria sobre ela.

“Sssssssssssssssss”.

“Sssssssssssssssss”.

Foi só quando uma rajada de vento entrou pela janela que o garoto tinha deixado aberta, a fim de fazer o ar circular e refrescar, que seus olhos se desviaram e sua atenção foi tomada por algo que para ele parecia impossível.

Aquilo não podia acontecer na sua cidade.

Neve em Lago Negro. Uma das cidades mais quentes de Santa Catarina.

Esfregou seus olhos, como para despertar de um sonho ou algo do tipo e um sorriso brotou de orelha a orelha quando constatou que era verdade.

Neve.

Saiu do quarto correndo, mas parou ao lembrar-se do que estava caindo do lado de fora. Neve. Frio.

Voltou e abriu o guarda-roupas. Vasculhou pelas pilhas de roupas que quase nunca precisava usar. Casacos e cachecóis que cheiravam a mofo, esquecidos no fundo das prateleiras.

Pegou duas peças e vestiu-as e então voltou a correr.

Desceu as escadas gritando para quem estivesse dentro de casa.

— Gente, vem ver isso. Rápido!

Não esperou resposta. Correu até a porta e saiu. Foi até o jardim da casa, onde abriu os braços, olhou para o céu e se deixou sentir.

— Que sensação gostosa.

Ainda estava daquela forma, sorrindo feito uma criança que acabara de ganhar algo pelo que esperneara para conseguir, quando sua mãe se juntou a ele.

— Isso não é possível.

Marcos olhou para ela.

— Pode apostar que é.

***

A neve nunca tinha feito uma visita à Lago Negro e parecia um tanto quanto impossível aquilo acontecer ali. Desde que a história começou a ser escrita, ninguém jamais descreveu tal acontecimento naquelas terras ao norte de Santa Catarina.

Porém não tinha passado no jornal há dois dias algo semelhante ocorreu em alguma cidade próxima dali?

Aquecimento global.

Essa era a pauta do jornal desde que aquele primeiro fenômeno os visitou. Reportagens e mais reportagens tentando encontrar algum motivo que explicasse a presença da neve em pleno verão, em uma cidade em que a um dia atrás a máxima havia marcado 38º.

Nenhum jornalista tinha conseguido entrar naquela cidade ainda, pois a nevasca era tão intensa que se tornava perigosa. Ninguém conseguia ver nada. E já ia para o terceiro dia naquela situação.

E Lago Negro era a próxima.

Mas ninguém conseguia convencer ninguém com as explicações e teorias.

E eles continuavam apostando no aquecimento global.

Porém ela estava vindo, a passos lentos e sorridente, de encontro à próxima cidade onde faria seu julgamento. Não estava mais faminta, pois a refeição de dois dias atrás tinha sido rica. Quase ninguém foi mantido vivo naquele lugar. E tinha certeza que o mesmo aconteceria com a próxima e com as próximas cidades.

Poucos seriam os escolhidos.

Poucos sobreviveriam.

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