CONTO – CULPADO

Naquela manhã o céu estava preenchido por nuvens gordas e escuras que derramavam gotas grossas de água por todos os cantos. O som delas se chocando com o telhado e as calhas da casa penetrou meus ouvidos me trazendo do mundo dos sonhos, fazendo meus olhos se espremerem e minha testa enrugar diante daquele maldito barulho. Detestava aquela cidade e o fato de parecer um imã para tempestades. A chuva era uma das coisas que eu mais odiava. Ela e meu filho ocupavam quase o mesmo lugar no meu pódio de coisas detestáveis e irritantes que a vida podia oferecer. Aquele ruído incessante que me fazia certas vezes pegar um tapa ouvidos e enfiá-lo fundo dentro das orelhas para tentar amenizar a irritação estava ali quase todos os dias, como se Deus risse da minha desgraça e se divertisse com tudo que me infligia dor. E ali estava ela mais uma vez, me tirando de um mundo fantasioso criado pelo meu cérebro, onde não existia chuva nem filho por perto, às sete horas da manhã de um domingo. Um dos únicos dias que eu podia ficar esparramado pela grande cama king size que um dia tinha dividido com minha esposa vagabunda, desfrutando do descanso e longe dele. Do pirralho que me fazia lembrar dela todo santo dia da minha miserável vida.

Meu filho provavelmente estava esparramado no sofá assistindo televisão, com um pacote de bolacha maria jogada do seu lado, mastigando ela e espalhando farelo por todos os lados, e um copo de nescau do outro para ajudar a processar a comida. Como se a vida e Deus não tivessem me zoado o bastante, ele adorava acordar cedo. Antes de o sol raiar no céu (quando ele aparecia ao invés da chuva), o moleque já estava de pé e na frente daquele aparelho. Dormir é desperdício de tempo, papai, vivia me dizendo, com seu dedo indicador levantado como se fosse um sábio do século XXI filosofando sobre dormir demais ou qualquer outra bosta do gênero sobre desperdiçar tempo. E a vontade de fechar o pulso, pressionar os dedos contra a palma da mão, colocar toda força que tinha no músculo do braço e levar o punho na direção da cara do pirralho era descomunal quando ele agia daquela forma, como se fosse mais esperto do que o próprio pai.

Os traços que desenhavam o rosto do pirralho e emolduravam a imagem e semelhança da mãe dele me faziam arder em um mar de raiva que eu nem sabia que existia até a vagabunda nos deixar. Parecia uma cópia idêntica dela, não só na imagem como em todo o jeito de se comportar e existir. Quando ele sorria, via ela na minha frente, mostrando aqueles dentes brancos e felizes na minha direção quando achava graça de algo que eu dizia. Quando ele falava, parecia a voz dela e a forma de emitir o som das cordas vocais que ela possuía quando conversava comigo no dia a dia ou na hora de deitar-se na cama para enfim descansar. Ele era ela em miniatura. Uma criança que me lembrava dela todo santo dia. E me lembrava de que ela tinha me abandonado junto com ele, deixado aquele pequeno pedaço de carne humana para trás junto com o marido corno. Deixando a cópia dela na minha vida para me torturar com a lembrança de ter sido chifrado e deixado para trás todo santo dia, até que ele pudesse finalmente sair de casa e me abandonar também.

Tentei empurrar ele para meus pais e para os pais da vagabunda, mas nenhum aceitou. Tentei lares adotivos e também recusaram. Meu salário era suficientemente alto para dar conta de sustentar uma criança. Mas o problema nunca foi o sustento. Era aquela cópia infernal da minha ex esposa.

E foi na noite desse dia que eu vi uma oportunidade de me livrar dele. De arremessar o pivete para fora da minha vida com um pontapé tão forte que seria impossível ele voltar.

Naquela noite, Josué deixaria de respirar. Não sujaria mais minha casa. Não derramaria mais nescau pelo chão. Mas acima de tudo, não me lembraria mais de tudo que eu odiava na vagabunda e nele. E eu acordaria com um largo sorriso no rosto, contente por levantar e não me preocupar mais com as lembranças. No outro dia, meu coração pesaria alguns quilos a menos e as amarras que antes o comprimiam seriam soltas para que ele pulsasse livre mais uma vez.

**

O moleque passou o domingo inteiro dentro de casa, assistindo a filmes na NetFlix. Disso eu jamais poderia reclamar, apesar de tudo, ele não incomodava de forma alguma. Se eu não visse a vagabunda todos os dias estampada no rosto dele, me lembrando que eu tinha sido chifrado e abandonado, acredito que eu teria gostado de ser pai dele. O pirralho era inteligente e carinhoso. As vezes eu via tristeza no olhar dele quando eu o tratava com indiferença ou de forma grossa, e não vou mentir que em algumas dessas vezes eu me odiava por agir daquela forma com uma criança. Ele não tinha culpa dos atos da mãe. Mas eu também não.

Em certo momento eu me juntei a ele para assistir alguma coisa também. Tinha aproveitado o domingo para dar uma geral na casa. Depois de um banho sentei no sofá e logo ele se jogou em meu colo.

— Vamos ver um terror, papai?

Meu Deus, porque ele tem que falar igual a mãe?

— Vamos.

Ele me olhou nos olhos e deu um sorriso sincero e amoroso. Mas era o sorriso dela. Da vagabunda.

— Eu já até separei esse aqui ó. Vi nos comentários e a galera achou mó daora.

Sorri de volta, forçando os dentes em uma linha reta que provavelmente foi mal sucedida, pois ele baixou a cabeça e o brilho dos olhos sumiu. Ele se afastou de mim naquele momento, colocando-se do outro lado do sofá. Puxou sua cobertinha até o pescoço e com o controle remoto selecionou o filme.

Puta que pariu, eu devo ser um monstro mesmo. Como eu posso tratar meu próprio filho, sangue do meu sangue, desse jeito?

O coração pesou naquele instante. Aquele sentimento de ser um monstro me assombrava cada dia mais. Ele se mesclava com a raiva e com o amor. Em alguns momentos eu me lembro de chegar a ter rezado para que o ódio se fosse. Pois por mais que eu o odiasse com todas as minhas forças, eu sabia que ele não tinha culpa. Afinal, ele também tinha sido abandonado pela mãe. Nós dois deveríamos nos firma um no outro e continuarmos juntos. Porém, ele sofreu mais que eu no fim das contas. Ele foi abandonado pelo pai também.

— Vem cá garoto. Vem aqui com o pai — foi tudo que eu consegui dizer, me arrependendo logo em seguida. Pois ele sorriu, e aquilo me lembrou dela de novo. E a raiva tomou conta. Mas eu permiti que ele ficasse ali abraçado em mim. Vidrado com os monstros que ganhavam vida na tela da TV. Quando tomava um susto, ele se apertava em mim como forma de proteção. E quando eu não estava olhando para o pirralho, eu o abraçava também, para protegê-lo.

E foi assim, agarrados um no outro, emoldurando a pintura de uma família moderna do século XXI, que o início do fim da vida do garoto chegou. Não demoraria muito até que eu o arremessasse na direção da morte. Eu, pai do meu filho, entregando-o nos braços de seus assassinos.

Ouvi um barulho de vidro se quebrando na cozinha. Meu coração disparou. Só podia ser uma coisa.

Assalto.

O pirralho deu um pulo no sofá e falou baixinho:

— O que foi isso, papai?

— Fica quieto Josué.

Me levantei e fui na direção do som. Eu deveria ter sido mais esperto, deveria ter pego o pirralho e corrido pela porta da frente. Lembra que disse que eu ganhava bem? Minha profissão não é importante aqui, mas isso era de conhecimento de pessoas ruins. E ali estavam elas. E eu fui na direção dos bandidos.

Antes mesmo de eu conseguir ver algo da escuridão da cozinha, dois homens apareceram apontando uma arma para mim.

— Volta pra trás, e sem fazer barulho, senão eu estouro seus miolos aqui mesmo.

E eu os obedeci.

Eles não vestiam máscara e isso fez meu coração pulsar. Eles não nos deixariam vivos, senão poderiam ser pegos. Seríamos testemunhas de seus crimes. E só existe um fim para pessoas que ficam na mesma posição em que estávamos.

A morte.

Voltei para a sala e o pirralho se agarrou nas minhas pernas e afundou sua cabeça em minha coxa.

— Diz pra criança ficar calada também. Senão vocês dois vão virar tinta vermelha no meio dessa sala.

Eles nos amarraram e nos jogaram no banheiro. E foi aí o grande erro deles e a minha oportunidade. Uma gilette para cortar as fitas e a janela para fugir.

E eu deixei o pirralho lá, com a desculpa que eu voltaria com a ajuda. Ele ficou soluçando, pedindo para que eu o levasse com ele. Para que não o deixasse sozinho com os homens maus. Mas eu deixei. Foi a minha chance de me livrar dele de uma vez por todas. E foi isso que eles fizeram.

Quando voltei com a polícia a casa estava vazia. Vazia pois a única pessoal que ainda restava lá era o corpo do pirralho com um tiro no meio da testa, deitado no chão frio do banheiro.

***

Os primeiros dias foram um misto de alegria e tristeza. Me sentia culpado pelo que tinha feito, mas quando lembrava da vagabunda e de que o pirralho me lembrava dela, a culpa ia embora e eu ficava bem. Resolvi me mudar porque não aguentava mais fingir o luto. Um luto que existia apenas por alguns breves momentos. Eu estava livre das lembranças dela. Agora, eu poderia viver minha vida.

Grande engano.

Comecei a adoecer do nada. O cansaço começou a fazer parte do meu dia a dia. As dores de cabeça eram constantes. Aos poucos minha vontade de sair de casa foi diminuindo e no final dos meus dias eu já nem ia mais trabalhar.

Demorei para entender o que estava acontecendo comigo até que um dia ele falou.

— Oi papai.

Eu dei um pulo ao me olhar no espelho e avistar o pirralho montado na minha nuca.

Esfreguei os olhos a fim de tirar aquela imagem absurda da minha frente, mas ela continuava lá.

— Você disse que ia voltar, papai. Por que você me deixou sozinho com os homens maus?

Eu lembro de ter berrado. Sai correndo de dentro de casa e naquela noite eu me embebedei como há muito tempo não fazia. Disse para mim mesmo durante os goles que virava na mesa de um bar que tinha sido fruto da minha imaginação. O cansaço às vezes prega umas peças engraçadas na gente, não é? Talvez fosse a culpa, raciocinei. Talvez no fundo da minha cabeça a culpa de ter abandonado meu filho para a morte tenha criado aquela alucinação.

Mas era real. Ele estava lá. E aos poucos eu fui me acostumando com a presença dele.

— Viu papai, eu não sorrio mais como a mamãe. Agora você pode me amar.

Uma lágrima escorreu do meu rosto ao ouvir aquilo. Ele sabia. Claro que sabia.

— Não fica triste. Vem comigo. Nós podemos ser uma família agora. Só eu e você, passando nossas tardes de domingo juntos, assistindo aqueles filmes de terror e você me abraçando e me protegendo dos monstros.

E os dias se passavam com aquela mesma conversa sobre me juntar a ele. E o cansaço cada vez mais me consumia. No dia do fim da minha vida, eu entendi o porquê. Ele estava se agarrando aquele plano através das minhas forças. Desde a morte dele até ali, era a minha vida que o mantinha vivo também. Eu era a única coisa que ele amava e tinha e por isso ele não conseguiu seguir o caminho para o que fosse que existisse do outro lado após a vida.

E então resolvi seguir as palavras do meu filho.

Eu o amava de volta. Ele não me lembrava mais da vagabunda. Em nenhum aspecto ele se parecia com ela. Agora, todas as suas expressões, seu sorriso e seu olhar eram iguais aos meus. E um sentimento de amor, que eu jamais tinha experimentado, tomou conta de mim.

Subi as escadas do meu prédio na direção do terraço, de forma lenta e arrastada. Minhas forças estavam se esgotando, eu podia sentir. Eu me encontraria com ele e poderíamos ser uma família feliz. Era o que ele queria.

Era o que eu queria.

A noite estava deliciosa no dia da minha morte. A lua, uma bola de neve branca e gigante, nos iluminava na beirada do prédio, como se assistisse a todo aquele espetáculo, esperando pelo ato final. O ventou beijou meu rosto, se despedindo de mim e do meu pequeno.

— Te vejo logo papai. Já separei um filme bem legal para nós assistirmos. Os comentários falaram que ele é bom demais.

Eu sorri.

Ele desceu das minhas costas e se pôs do meu lado. Segurou minha mão, olhou para mim e sorriu.

— Não tenha medo. Não vai doer.

Eu olhei para ele, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto.

— Me desculpe Josué. Papai deveria ter te amado mais.

Ele sorriu de volta.

— Você vai ter tempo para se desculpar, papai. Agora pule.

Eu sorri mais uma vez. Pela última vez.

E pulei.

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