EM UMA VIELA QUALQUER DA RUA AUGUSTA

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O céu estava limpo e cheio de estrelas. Marcos acelerava os passos e volta e meia inclinava a cabeça para trás. A sensação de estar sendo seguido o acompanhava já fazia quase cinco minutos.

“Por que fui inventar de querer cortar caminho por aqui?”, pensava enquanto andava cada vez mais rápido.

Na baixa Augusta a iluminação era precária e a segurança mais ainda. Por diversos trechos a única luz que existia lá vinha da grande lua cheia, branca e agourenta, que seguia-o pelo céu, como se previsse alguma desgraça e ansiava por testemunhá-la.

Um som de passos invadiu os ouvidos dele, fazendo seu sangue gelar. Arriscou mais uma olhada para trás, rezando inconscientemente para que não visse nada. Mas viu.

Um vulto negro agora o acompanhava e quanto mais apurava os passos, mas a pessoa que o seguia também o fazia. Começou a correr. Ouviu os passos atrás dele correrem juntos.

“Porra, não, não, não … não faz nem um mês que levaram meu celular. De novo não”, pensava, enquanto corria. Os passos atrás dele estavam mais próximos agora. Gritou por socorro, mas não tinha ninguém por perto para ajudá-lo. O único som em resposta que recebia era o eco de sua voz, como se voltasse para tirar sarro dele. De repente tropeçou em algo e se estatelou no chão. Foi de arrasto rua abaixo e seu queixo foi quem sofreu mais, sendo arrastado por alguns centímetros até que enfim o corpo parasse. Sentiu gosto de sangue na boca.

Tentou levantar-se, mas a pessoa que o seguia subiu em cima dele.

— Que porra cara. — Disse, cuspindo sangue junto com as palavras.

— Quietinho se não quiser morrer. — Teve como resposta.

Olhou para a frente com a esperança de ver alguém vindo em sua direção para ajudá-lo. Não havia ninguém lá. Apenas uma rua escura e desabitada.

— Pega o dinheiro da minha carteira cara, mas não me machuca. Tenho uma filha. — Mentiu, tentando fazer com que o ladrão não o matasse ali mesmo.

Ouviu uma gargalhada como resposta. O homem em cima dele aproximou a boca do ouvido de Marcos e por um instante ficou em silêncio.

A respiração do ladrão era fria e o cheiro do hálito logo tomou conta das narinas do rapaz. Não era um cheiro ruim, mas era um odor que ele nunca tinha sentido antes. Palavras ecoaram em sua mente: “Morte”.

— Eu não quero dinheiro. — Sussurrou o homem, rindo baixinho e logo em seguida passando sua língua pela orelha de Marcos, em movimentos lentos e circulares. A língua era gelata, tal qual a respiração.

— Só quero um pouco do seu sangue.

— Que porra … — Tentou dizer enquanto fazia força para se desvencilhar do homem. Foi inútil. Com apenas um leve empurrão, foi jogado de volta ao chão.

O homem riu novamente. Levou a cabeça de volta ao ouvido de Marcos e falou:

— Se você for bonzinho eu te deixo viver. — E lambeu a orelha dele novamente, agora descendo até o pescoço.

— Cara, eu não curto isso. Tudo bem se você curte. Me deixa ir por favor …

O homem empurrou a cabeça do rapaz com força em direção ao chão, fazendo-a chocar-se bruscamente.

— Mandei ficar quieto.

A pancada deixou-o tonto. Sentia sua cabeça úmida. “O desgraçado cortou meu rosto”.

Ia morrer ali, jogado na sarjeta, em uma viela imunda da rua Augusta. Quanto tempo levaria até que alguém encontrasse seu corpo? Ou pior, quanto tempo levaria até que sua família soubesse de sua morte? Morava sozinho em São Paulo fazia três anos e não entrava em contato com os pais frequentemente. Sentiu lágrimas saindo dos olhos. O sonho de ser editor e tradutor seria interrompido, e faltava tão pouco. Fechou os olhos, aguardando a morte abraçá-lo e levá-lo para sabe-se lá aonde.

Então algo perfurou seu pescoço. No começo foi doloroso, mas segundos depois tornou-se tranquilizador. O que era isso tudo? Sentia que o homem estava sugando algo. Seu sangue? Não podia ser.

O sujeito ficou fazendo isso por alguns minutos até que Marcos desmaiou. Enfim a morte. “Mas que forma estranha de morrer”, pensou antes de ser tomado pela escuridão total.

 

***

 

Quando abriu os olhos novamente, viu o homem agachado em sua frente. Tentou levantar, mas a força o abandonou por completo.

— Não se esforce. — O homem falou, com grandes olhos castanhos que sorriam para Marcos.

O sujeito olhou no relógio e depois passou a mão pelo cabelo e então disse:

— Daqui a 6 horas o sol vai aparecer nesse céu. Se não quiser morrer, evite-o.

Marcos tentou falar, mas as palavras saíram embrulhadas.

— Vampiro?

O sujeito na sua frente sorriu, agora de forma afável.

— Sim garoto. É o que sou e é o que você será. Faça o que eu disse. Vá para casa, feche as cortinas e durma durante o dia. Quando a noite chegar, eu te encontro pra conversarmos mais. Você é meu agora.

Ele sorriu para o rapaz que ainda se encontrava deitado no chão. O que Marcos viu foi dois pares de caninos avantajados, saltando para fora da boca do homem. Deu as costas e se foi, da mesma forma sorrateira que aparecera, sem dizer mais nada.

***

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