6 – Enlouquecidos

Então aquilo era amor. Agora, mais do que nunca, tinha a capacidade de julgar os escolhidos e os condenados.

Fechou os olhos por alguns segundos, enquanto a mulher passava uma esponja quente por seu corpo, e os avistou.

Encontrou todos os maus da cidade dentro de sua cabeça e os ligou como uma teia de aranha. E então o mau foi instaurado. E eles próprios acabariam uns com os outros.

***

Marcos está sentado mais uma vez na sua mesa em frente ao seu caderno aberto, mas a caneta em sua mão não está criando palavras. Ela se move de um lado para o outro, pelos movimentos dos dedos do rapaz.

Ele encara o branco que se encontra do lado de fora da cidade, tentando fazer alguma ligação com sua história. Mas não encontra. Não tem neve lá.

O vento bate contra o vidro, agora fechado, e o barulho é gostoso. É inspirador. Ele baixa os olhos para o papel e continua de onde parou. Sobre a mulher gorda na caverna.

Ele ainda não compreende seu sentimento em relação aquele personagem, e teme o fim dela. Não sabe ainda se a criatura é boa ou ruim. As vezes ele concorda com as ações dela, as vezes não.

Suspira, mas a mão continua a escrever. As palavras parecem fluir de seu inconsciente de forma automática. Nem precisa pensar. Só escrever.

Ele nem percebe os barulhos no andar debaixo e nem os sons de berros do lado de fora da casa. Está em transe.

Sua consciência diz para que ele tranque a porta e ele nem se pergunta o porque. Apenas se levanta e faz. Depois volta para a mesa e continua a escrever. Se continuar nesse ritmo, logo terá um fim para sua criação. E ele teme o fim. O fim dela, não dos outros. Ele a ama?

Seus ouvidos não captam o barulho de batidas na porta. Uma bolha anti-ruído para envolver o garoto. As batidas continuam e depois cessam. Quem quer que quisesse entrar lá, desistiu.

E agora se encontra na rua. Sua mãe está enlouquecida. Assim como os outros moradores. E ele nem percebe que jamais a verá de novo. Nem com vida, nem seu corpo.

***

Um cenário de guerra se instaurava do lado de fora das casas de Lago Negro, em meio a cortina branca da nevasca.

A mãe de Marcos saiu correndo escada abaixo, após tentar abrir a porta do quarto do filho a ombradas. Não entendia o porquê de tanta raiva, mas queria socar o filho até abrir a cara dele em duas partes e ver o sangue jorrando pelo rosto dele.

Mas ela amava o garoto. Por que desejava aquilo?

Não fazia ideia. Só sabia que de um momento para o outro, uma raiva descomunal tomara conta de seu ser.

Percebendo que não conseguiria por a porta abaixo, desceu as escadas correndo e se jogou para fora da casa, procurando por alguém para bater.

E achou várias pessoas que já se encontravam brigando. Alguns corpos caídos, sem vida, jaziam no chão.

E ela chegou contra os que ainda estavam de pé, de punhos fechados e desferindo socos.

Seus pulsos doíam com a força com que socava rostos e corpos. Seu rosto doía com os socos e pontapés que recebia.

Sangue pintava a neve branca.

Gritos ecoavam pelas ruas da cidade insana.

Sentiu vontade de morder. De provar da carne humana e de sangue quente. Abriu os punhos e a boca e mordeu.

Outros fizeram o mesmo.

Só ela ficou viva daquele grupo da sua rua.

Saiu correndo em busca de mais.

E tinha mais ainda.

Eles lutariam sem nem saber o porque durante algumas horas.

E enquanto isso, a menina estaria amparada pela mulher no aconchego quente da casa,

envolvida pelo manto do amor.

“Se matem. Dêem fim as suas miseráveis vidas. Vocês não merecem viver” dizia ela na mente dos moradores. Era um truque que aprendera há muitos anos. O controle mental era uma de suas armas desde o início da sua criação.

E assim ela ficou enquanto a cidade era reduzida a poucos sobreviventes ensandecidos. Ansiosos por sangue e por carne.

E ela sorria, mas não pela carnificina. Sorria pelo amor da mulher.

5 – Um Resgate

O desejo da maternidade fazia parte de Márcia desde muito cedo, quando ganhou sua primeira boneca de presente dos pais. Não sabia dizer o porque aquela vontade de ser mãe existia, mas tinha plena certeza de que tinha nascido para aquilo.

    Mas a vida parecia não concordar e ela e o marido falharam em inúmeras tentativas.

    Seu útero era fraco e não aguentava mais do que três meses de gestação.

    Já tinha perdido três bebês e sempre no mesmo período. Três meses.

    Márcia chorava escondida entre os corredores da casa. As vezes a tristeza era tanta que tinha de se trancar no banheiro, com o chuveiro ligado, para abafar o som dos soluços. O marido odiava quando ela chorava. Ele não tinha pretensão de ser pai e ela sabia que ele dava graças a Deus por a mulher não conseguir parir um filho.

    De uns tempos para cá ela decidiu que desistiria da ideia de ter um filho do próprio sangue. Os médicos tinha dito que era impossível. Que jamais conseguiria. Mas ela ainda queria ser mãe e a adoção começou a fazer parte de seus pensamentos diários.

    Porém Bruno discordava. Não queria ser pai e foi pego de surpresa com a nova ideia da mulher.

    — Não vou trazer alguém que não é do meu sangue pra dentro dessa casa. Pode esquecer.

    — Mas eu quero ser mãe. Eu preciso.

    — Você precisa é lavar aquela louça que tá suja faz um dia na pia.

    Márcia virava a cara e ia para o banheiro. Não alongava as discussões e a cada dia que se passava, pensava em fazer aquilo sozinha. Pedir o divórcio, dividir os bens e criar seu filho da melhor maneira possível.

    Existiam tantas crianças abandonadas por aí. Não entendia como um ser humano era capaz de fazer algo desse tipo, mas quem sabe Deus não quis que ela fosse mãe biológica justamente por isso? Para ajudar e amparar os que foram deixados para trás. Para mostrá-los que a vida ainda podia ser boa. Que nem todos eram maus daquela forma.

    Era diretora de uma empresa de tecnologia na cidade vizinha. Seu salário era muito bom e não necessitava do marido para aquilo.

    Ela o amava ainda? Achava que sim. Porém a vontade de ser mãe era maior que qualquer amor. E se o preço para aquilo fosse abandonar a vida de casa, que assim fosse.

    Quando a nevasca chegou ela estava sentada na poltrona da sala, lendo um de seus livros sobre maternidade. Estava mais preparada que qualquer outra mãe em qualquer lugar do mundo pudesse estar. Já lera tanto
sobre o assunto que às vezes sentia que tinha um filho. Mesmo sabendo que era apenas fruto de sua imaginação. Tinha dias que se pegava conversando sozinha, como se estivesse falando com alguma criança. Algumas dessas vezes até acreditava que estava ficando doente da mente de tanto que ansiava por aquilo.

    O livro daquela noite era um álbum de recortes que ela mesma montara, cheio de recortes de revistas e livros, com crianças e seus pais formando uma família. Era seu álbum dos sonhos. O álbum que desejava ser realidade.

    Não tinha saído para ver a neve. O marido encontrava-se do lado de fora e às vezes chamava por ela para que juntos apreciassem o fenômeno inédito que acontecia em Lago Negro. Porém ela não o atendia.

    Ele entrou depois de alguns minutos do lado de fora, avisando que a neve tinha ficado mais intensa e o vento mais frio e quase insuportável, mas ela nem deu atenção. Seus olhos contemplavam as imagens e as crianças sorridentes das fotos.

    Porém um choro tirou-a do transe. Um choro de criança. Seu coração disparou de dentro do peito. E se uma criança estivesse perdida em meio aquela nevasca? Perdida dos pais e entregue a própria sorte.

    — Você ouviu esse choro?

    — Não ouvi, mulher. Tá imaginando coisa de novo?

    Márcia não respondeu.

    Ficou sentada, atenta aos sons que vinham do lado de fora. E o choro ecoou mais uma vez.

    — Tenho certeza que tem uma criança chorando. Perdida lá fora.

    — Mulher, para com isso. Você vai ficar louca com essa fixação por criança e maternidade.

    — Cala a boca Bruno.

    O homem congelou. A mulher nunca falava daquela forma com ele. Nem quando ele a tratava de forma ríspida e grossa.

    Ela levantou-se do sofa e se enrolou em sua coberta. Abriu a porta e andou em meio ao branco que era toda a nevasca do lado de fora.

    O marido ficou parado, perplexo com a mulher.

***

    Márcia não conseguia enxergar nada. Seus olhos avistavam apenas a cor branca e nenhuma forma. Nem sabia mais a direção da sua casa. Estava perdida no meio da nevasca (mesmo que a alguns metros da porta de casa), mas não sentiu medo. Sua natureza materna gritava mais alto.

    — Tem alguém aí?

    Nenhuma resposta. Ficou parada, aguardando mais uma vez pelo choro.

    E ele veio.

    Ela seguiu o som.

    — Continue falando para que eu possa ir até você. Não consigo ver nada, mas posso seguir o barulho.

    E a criança atendeu. Continuou chorando até que Márcia a encontrou.

***

    Ela estava do lado de fora da casa da mulher e podia sentir o anseio dela. Queria um filho. Precisava compartilhar seu amor com uma criança, e isso a entristeceu (e a pegou de surpresa). Achou que tinha sido atraída até lá pela maldade, mas foi o contrário. Encontrar o bem também fazia parte de sua natureza? Agora acreditava que sim.

    Forçou um choro para testar a mulher.

    E para sua surpresa, ela veio em busca da criança perdida. Dela.

    Ouviu as palavras para que continuasse chorando. E assim fez. Precisava entender mais sobre aquele novo sentimento. Achava que só tinha experimentado uma parte do amor em relação aos seus filhos. Mas aquele ali era diferente. Era mais forte e mais intenso.

    E então a mulher chegou. Abaixou-se em sua frente e a abraçou.

***

    — O que faz aqui perdida, criança? E ainda só de vestido. Vai pegar uma pneumonia assim.

    Márcia a abraçou e depois pegou-a no colo. Não sabia onde estava sua casa, mas por um milagre (ou ajuda da menina, ela pensaria depois), encontrou a porta ainda aberta.

    Bruno estava sentado no sofá assistindo TV, como se a mulher não tivesse se embrenhado no meio da tempestade. Sem se preocupar que ela pudesse morrer congelada, perdida sem conseguir retornar para o aconchego do lar.

    Quando ela entrou para dentro de casa, deixou o controle escorregar da mão.

    — Que porra é essa Márcia? Quem é essa menina?

    — Era ela que estava chorando, seu sem coração. Eu falei que tinha ouvido choro de criança.

    — Márcia, coloca essa menina pra fora já. Não quero problemas com policia achando que sequestramos o filho de alguém.

    — Tá louco Bruno? Tá achando que ela é um animal pra ser abandonado do lado de fora com essa tempestade toda? Olha só pra ela. Ela ia morrer congelada lá fora.

     — Isso é problema dos pais dela, não nosso. Bota ela pra fora já.

    — Cala a boca e vai assistir sua TV. Assim que essa nevasca passar vou ligar para o delegado avisando que encontrei uma criança perdida.

    — Márcia, não me desafie.

    — Senão o que? Vai começar a me bater agora?

    Bruno não disse nada. Encarou a mulher com os olhos flamejantes, tentando impor algum medo, até que se deu por vencido.

    — Que seja. Mas eu não vou chegar perto disso aí nem fodendo. Sua responsabilidade.

    A mulher subiu as escadas ainda com a menina em seus braços. Daria um banho quente nela e depois procuraria algo mais quente ainda para ela se vestir.

    Enquanto seus pés caminhava na direção do banheiro, pensamentos cruzavam por sua cabeça. Como ela se permitiu casar com um homem tão insensível e sem coração feito aquele, que tratava uma criança desamparada como um animal qualquer. E mesmo um animal deveria ser abandonado do lado de fora de um lar quente em uma noite como aquela.

    Seu coração estava mesclado de ódio e amor agora.

    E a menina sentia aquilo. Mas era um ódio bom. Um ódio que não a obrigava a levar a mulher consigo. Estava descobrindo mais sobre o amor, e agora entendia que ódio e amor às vezes andavam juntos. Às vezes se complementavam.

    Durante todo o banho ela não parava de encarar a mulher, tentando entender tudo aquilo. Essa descoberta atrasaria um pouco seus planos, se ela não tivesse uma carta nas mangas.

    Enquanto a mulher cuidava da menina, a cidade enlouquecia. A neve não era mais o perigo. Os moradores eram.

4 – A Nova Moradora

Saiu da loja pelo buraco aberto por sua vítima. Ouvia a voz dele dentro da sua cabeça, implorando por misericórdia. Mas ela não tinha pena. O que estava feito, estava feito.

Passou pelo carro abandonado do homem, ainda com a porta aberta, esperando por seu condutor que nunca mais voltaria.

Voltou a sua forma natural de garotinha. Afinal, sua próxima vítima clamava por isso. Por uma criança.

Seus pés marcavam seu caminho pela neve que agora ficava cada vez mais densa e alta nas ruas daquele lugar, denunciando de onde o mal tinha vindo e para onde ele ia.

Passou por famílias que se divertiam em meio aquela confusão, incapazes de pensar que o fenômeno fosse algo relacionado com o sobrenatural. Que a neve trazia a morte e o fim de suas vidas. Não sentiu-se triste. Tristeza não fazia parte de sua natureza. Apenas selecionar os bons e os ruins. A nova terra estava sendo formada e era só isso que a preocupava. Era isso que a movia.

Ninguém pareceu prestar atenção na pequena garota, coberta apenas por um vestido em meio a todo aquele frio. O termômetro que a poucas horas marcava 35º agora exibia uma temperatura de 2º. Mas ela não tremia. Se alguém tivesse olhado na direção da rua e visto a menina que parecia transitar sem nenhum problema, de pés descalços e quase sem roupa, talvez tivesse pensado que algo estava errado. E talvez tivesse pego o carro e ido para longe da cidade a tempo de salvar sua vida (ou adiar sua morte). Porém ninguém o fez. E ela seguia o chamado da mulher.

A neve começou a intensificar assim que os passos dela percorriam a extensão das ruas. As pessoas começaram a se assustar com o vento que aumentava e com o frio que agora machucava. Os dentes dos moradores agora não mostravam um sorriso, mas chocavam-se um contra o outro, advertindo seus donos de que ali fora não era mais aconchegante e seguro.

Pouco a pouco os pátios das casas começaram a ficar vazios mais uma vez.

A nevasca aumentou e pelas janelas os moradores apenas avistavam uma imensidão branca. Nem a rua e as árvores podiam ser avistadas agora.

A diversão tinha acabado e o medo agora tomava conta da atmosfera de Lago Negro.

E ela sentia o medo.

E ela sorria.

E caminhava na direção do chamado da mulher. Da vítima. Do alimento.

Capítulo 3 – Coisas Estranhas Vêm com a Neve

A brisa agora soprava pelas ruas da cidade. As pessoas se amontoavam do lado de fora das casas, vestindo as roupas de frio que encontravam e com cobertores por cima dos ombros como complemento para ficarem protegidos.

As lojas não tinham roupas mais quentes e nem estavam preparadas para aquilo.

Ninguém estava.

Foram pegos de surpresa. Lojistas e moradores.

Mas os olhos de Ângelo não brilharam por causa da neve. Brilharam pela oportunidade que ele teria nos próximos minutos de roubar aquela Smart TV de 55″ que ele tanto queria, sem que as câmeras da cidade conseguissem vê-lo, e muito menos os moradores distraídos com o estranho fenômeno que caíra sobre Lago Negro.

Só de pensar nos pornos e filmes de ação que poderia assistir naquela imensidão que seria a televisão fez seu pau endurecer dentro da calça.

Sorriu para a janela, encarando seu próprio reflexo.

— As gatinhas virtuais te esperam, gostoso — falou para si mesmo, dando uma piscada antes de se retirar. Nem passou pela sua cabeça que deveria vestir algo mais quente, afinal, não estava acostumado com neve.

O que imaginara estava realmente acontecendo. Entrou no carro e então cruzou a rua da sua casa como se fosse um fantasma.

Passou por Marcos e sua mãe que pareciam duas crianças bobas de braços abertos, olhando para o céu.

As pessoas encontravam-se do lado de fora, fazendo bonecos de neve ou atirando bolas uns nos outros. Ficou feliz ao perceber isso e pressionou o acelerador. Não poderia perder essa chance. Com seu salário mínimo conseguiria comprar uma daquelas só dali dez anos. Era sua chance. O Destino lhe dando um presente.

Reginaldo, o proprietário da pequena loja (e seu amigo de bebedeira nas sextas-feiras a noite) não sentiria falta daquele objeto. Ele tinha seguro, e Ângelo sabia disso. No outro dia ele só pegaria o telefone, avisaria do ocorrido e depois de alguns dias teria seu dinheiro de volta.

Mas Ângelo lembrou que se convidasse o amigo para ir na sua casa, teria de esconder sua belezinha.

Atravessou o bairro com o ponteiro marcando 80km/h. Nem pensou no perigo que corria ao dirigir sob uma superfície cheia de gelo, com um carro não preparado para aquilo.

Mas o destino estava do seu lado. Ela estava do seu lado. Ela sentia o homem e sua índole. E ela o esperava.

Passou pelas ruas como o espírito de alguém que há tempos já havia partido e não pudesse ser avistado por olhos humanos. Estacionou o carro em frente à loja (ajudaria na fuga rápida). Deixou o motor ligado e a porta aberta. Seria vapt e vupt. Entrar, pegar o brinquedo e ir pra casa. Ninguém saberia. Só ele e a neve que caia.

Porém a neve era ela. E ela sorria escondida em um canto escuro da loja, esperando pelo homem. Lendo seus anseios e o seu ser.

Colocou a mão sobre a maçaneta da porta com a esperança de que estivesse aberta e não precisasse quebrar o vidro da vitrine, causando mais prejuízo para seu amigo. Mas como suspeitava, estava trancada.

Voltou até o carro e do porta-malas retirou a chave de rodas e sem pensar duas vezes, arremessou-a contra o vidro.

O barulho foi alto e por um momento ele pensou em fugir. Outras pessoas poderiam ouvir e irem de encontro ao som emitido pelo vidro se esparramando contra o chão. Ficou parado por quase um minuto, esperando para ver qualquer movimento pelas ruas.

Continuava vazia.

Então a imagem da TV na sua sala encheu-o de coragem mais uma vez e ele se pôs a andar de forma apressada. Tentaria ser o mais rápido possível. Não desejava ser preso e conhecido na cidade como um ladrão oportunista. Ele não era ladrão. Só queria uma TV que era cara demais para o seu mísero salário.

Entrou pelo buraco agora aberto no recinto. O som da bota esmagando o vidro no chão acendeu mais uma vez o alerta em sua cabeça. Mas era tarde agora. Estava feito.

Sabia onde o objeto de desejo se encontrava. Já parara naquele lugar para o admirar por muitas e muitas vezes. Passou pelos corredores que o levariam à sua mina de ouro. Quanto estava quase chegando seu coração congelou.

“Reginaldo está aqui, estou fodido”, pensou, com os pés cravados no piso da loja.

Uma figura se encontrava atrás do balcão nos fundos, onde Reginaldo levava os aparelhos para os clientes.

Ficou parado, observando a forma que não se mexia. Seus olhos começaram a se adaptar à escuridão e um alívio percorreu todo o seu corpo. Era a silhueta de uma mulher. Podia dar um jeito naquilo. Talvez ela nem visse quem ele era.

Se aproximou da TV. Ia pegá-la e dar o fora. Foda-se quem fosse. Mas outra coisa que seus olhos enxergaram o fez mudar de ideia.

Os seios dela. Grandes e redondos. Expostos.

Será que via certo? Não era o escuro lhe pregando uma peça?

Acreditava que não.

Esqueceu a TV por uns instantes e começou a andar na direção da estranha.

— Ora ora, o que uma dama faz aqui perdida numa hora dessas?

Ela não respondeu.

Agora mais perto ele podia ver os dentes da mulher formando um sorriso sedutor.

— É tímida, senhorita?

Ela balançou a cabeça em uma afirmativa.

— Não tenha medo. Eu tô aqui pra ajudar. Tá perdida?

Ela negou.

A mulher começou a se mover de forma elegante. Saiu de trás do balcão e fez com que o membro de Ângelo quase explodisse dentro da calça. Estava completamente nua.

— Olha moça, assim fica difícil para um cavalheiro se segurar e não aprontar com a senhorita.

Ela sorriu e com a mão fez um sinal para que ele fosse na direção dela.

E ele foi, sem saber que a morte o esperava.

Se pôs na frente dela e as mãos da mulher foram direto para a camisa do homem, retirando-a.

Ela baixou os olhos, fingindo uma reação de timidez.

Aquilo fez Ângelo quase goz*r nas calças.

A mulher repetiu o mesmo com a calça e a cueca do homem e em questão de minutos os dois estavam completamente nus, cobertos pela escuridão da loja de Reginaldo.

— A senhorita não fala? Eu adoro quando as mulheres imploram por uma pica.

A mulher apenas sorriu.

— Ok então. Acho que isso não faz tanta falta.

Ela deitou-o no chão e ele obedeceu sem pestanejar.

Ela montou em cima dele e logo começou a cavalga-lo.

O homem gemia.

Ela sorria.

Sentia a energia dele sendo drenada. Pouco a pouco. Fazia movimentos para frente e para trás. Nunca tinha feito sexo na vida, mas sua natureza conhecia aquilo. Afinal, ela era tudo aquilo. Ela começou a ir mais rápido e mais rápido.

O homem se animou no começo. Mas depois começou a ficar estranho. Seu pau começou a ferver. E depois a doer. Ele pediu para ela parar, mas a mulher apenas sorria.

Mas o sorriso agora não era tímido. Era maníaco.

Ele tentou empurrá-la para longe, mas a mulher parecia pesar mil quilos e não se moveu um centímetro.

Ele deu um tapa no rosto dela, mas a estranha não reagiu de forma alguma.

Tentou um soco, sem sucesso.

Começou a berrar por socorro.

Todos da cidade estavam distraídos com a neve e ninguém ouviu os clamores dele. E se alguém ouviu, pensou que fosse o som de divertimento de algum outro morador de Lago Negro.

Pouco a pouco o homem foi sendo sugado. Suas entranhas começaram a ser puxadas de dentro dele pelo canal urinário. E ele urrou de dor. Foi sugado de dentro pra fora e em menos de cinco minutos, seu sonho de possuir uma TV ou de comer aquela linda e estranha mulher tinham desaparecido para sempre.

Ela levantou-se.

E antes que pudesse pensar em correr atrás de outra vítima, a vítima a chamou.

E ela sorriu mais uma vez.

Capítulo 2 – A Chegada da Neve

Marcos encontrava-se em seu quarto, preso nas folhas de seu caderno onde escrevia seu novo romance. Decidira por usar papel e caneta depois de frustradas tentativas em fazer aquilo direto no computador. O dispositivo eletrônico era cheio de tentações, que insistiam em puxar sua atenção para fora do mundo em que tanto se esforçava para criar, como os tentáculos dos monstros de Lovecraft puxavam suas vítimas, tornando-se quase impossível de se desprender.

E estava dando certo.

Pelos cálculos dele, já passara da metade da história. Seus personagens agora eram coesos e bem definidos. Ele próprio tinha receio de lá para perto do final ter de acabar com alguns, que durante todo aquele processo, foram cativando o coração dele e se tornando quase um amigo ou um irmão.

Um personagem em especial.

O quarto estaria engolido pelo escuro se não fosse pela fraca luz da lua que entrava através da janela e pela lâmpada da luminária de mesa que emitia raios amarelados para cima do papel que servia como objeto de criação dele.

Ele estava tão preso em seu mundo, passando a ponta da caneta sobre a superfície de papel, formando letras, palavras e então frases que interligavam todo o enredo de seu mundo, que nem percebeu os primeiros flocos de neve caindo do céu e chocando-se, quase inaudíveis, com o chão quente de Lago Negro.

Quem pusesse o ouvido perto do asfalto naqueles primeiros minutos ouviria o barulho dela derretendo quando encontrava o calor do local em que tocava. O mesmo barulho que uma superfície fervendo emite ao jogar-se água fria sobre ela.

“Sssssssssssssssss”.

“Sssssssssssssssss”.

Foi só quando uma rajada de vento entrou pela janela que o garoto tinha deixado aberta, a fim de fazer o ar circular e refrescar, que seus olhos se desviaram e sua atenção foi tomada por algo que para ele parecia impossível.

Aquilo não podia acontecer na sua cidade.

Neve em Lago Negro. Uma das cidades mais quentes de Santa Catarina.

Esfregou seus olhos, como para despertar de um sonho ou algo do tipo e um sorriso brotou de orelha a orelha quando constatou que era verdade.

Neve.

Saiu do quarto correndo, mas parou ao lembrar-se do que estava caindo do lado de fora. Neve. Frio.

Voltou e abriu o guarda-roupas. Vasculhou pelas pilhas de roupas que quase nunca precisava usar. Casacos e cachecóis que cheiravam a mofo, esquecidos no fundo das prateleiras.

Pegou duas peças e vestiu-as e então voltou a correr.

Desceu as escadas gritando para quem estivesse dentro de casa.

— Gente, vem ver isso. Rápido!

Não esperou resposta. Correu até a porta e saiu. Foi até o jardim da casa, onde abriu os braços, olhou para o céu e se deixou sentir.

— Que sensação gostosa.

Ainda estava daquela forma, sorrindo feito uma criança que acabara de ganhar algo pelo que esperneara para conseguir, quando sua mãe se juntou a ele.

— Isso não é possível.

Marcos olhou para ela.

— Pode apostar que é.

***

A neve nunca tinha feito uma visita à Lago Negro e parecia um tanto quanto impossível aquilo acontecer ali. Desde que a história começou a ser escrita, ninguém jamais descreveu tal acontecimento naquelas terras ao norte de Santa Catarina.

Porém não tinha passado no jornal há dois dias algo semelhante ocorreu em alguma cidade próxima dali?

Aquecimento global.

Essa era a pauta do jornal desde que aquele primeiro fenômeno os visitou. Reportagens e mais reportagens tentando encontrar algum motivo que explicasse a presença da neve em pleno verão, em uma cidade em que a um dia atrás a máxima havia marcado 38º.

Nenhum jornalista tinha conseguido entrar naquela cidade ainda, pois a nevasca era tão intensa que se tornava perigosa. Ninguém conseguia ver nada. E já ia para o terceiro dia naquela situação.

E Lago Negro era a próxima.

Mas ninguém conseguia convencer ninguém com as explicações e teorias.

E eles continuavam apostando no aquecimento global.

Porém ela estava vindo, a passos lentos e sorridente, de encontro à próxima cidade onde faria seu julgamento. Não estava mais faminta, pois a refeição de dois dias atrás tinha sido rica. Quase ninguém foi mantido vivo naquele lugar. E tinha certeza que o mesmo aconteceria com a próxima e com as próximas cidades.

Poucos seriam os escolhidos.

Poucos sobreviveriam.

Capítulo 1 – Ela Caminha

SEGUNDO LUGAR no concurso do perfil oficial de suspense (SuspenseLP) do WattPad

“Intrigante e congelante! Precisei me cobrir com várias camadas de cobertores enquanto lia; traduzindo assim as fantásticas ações textuais para ligar o leitor a obra.”

Estava livre. As amarras da caverna não a prendiam mais. Movia-se por seus próprios pés. Quanto tempo se passara, não sabia. Quem a libertara? Não fazia ideia. Provavelmente seu criador. Quebrou as rochas que a aprisionaram naquele lugar como se fossem mero papel, esfarelando-as com facilidade em apenas um toque. Os feitores provavelmente nem viviam mais. Seus filhos jaziam mortos e deles restavam apenas os ossos. Comeram da carne um do outro até que comida não existisse para alimentar seus corpos. Viu eles se definharem aos poucos, sem poder fazer nada, inerte em seu lugar. Em sua antiga prisão. Tentaram saborear-se dela como um último ato de desespero. Morreram ao encostarem em sua pele.

Seus pés agora moviam-se e era uma sensação um tanto quanto engraçada. Os primeiros passos foram bagunçados e desajeitados, mas ela aprendeu rápido. E agora caminhava por entre a terra que conhecia apenas pelos olhos de outros. Mas o local estava deserto. As ruas e as casas que um dia foram habitadas por seus filhos e pelos corpos dos humanos agora estavam tomadas pela natureza, cobertas de mato e flores.

Seu corpo havia mudado. Não era mais aquela coisa imensa. Sua natureza não era mais crescer e expandir. Agora ela podia andar e se locomover. Mas ainda estava faminta.

Nevava lá fora. Era por causa dela? Como sabia que aquilo era neve, se nunca tinha tido contato com tal fenômeno? Achou melhor não questionar.

Estava livre.

Faria o desejo de seu criador finalmente, depois de tempos adormecida. Limparia aquele mundo dos que não davam valor a ele. Agora sabia o que tinha feito errado desde o início, e talvez por isso seu destino tomou um rumo indesejado no passado.

Porém agora entendia o como. Fazia parte de sua natureza e cabia a ela julgar os que fariam parte do novo mundo e quem não.

Andou pelas terras com os pés descalços, sentindo as folhas das árvores por entre os dedos dos pés. A energia de tudo se conectava a ela.

Tudo aquilo era ela.

E a neve a seguia, pintando a paisagem de branco e cobrindo tudo com sua cortina de neve.

Já tinha esperado demais. Era hora de começar tudo de novo.

Da maneira correta. Com a benção dele, seu criador.

CONTO – CULPADO

Naquela manhã o céu estava preenchido por nuvens gordas e escuras que derramavam gotas grossas de água por todos os cantos. O som delas se chocando com o telhado e as calhas da casa penetrou meus ouvidos me trazendo do mundo dos sonhos, fazendo meus olhos se espremerem e minha testa enrugar diante daquele maldito barulho. Detestava aquela cidade e o fato de parecer um imã para tempestades. A chuva era uma das coisas que eu mais odiava. Ela e meu filho ocupavam quase o mesmo lugar no meu pódio de coisas detestáveis e irritantes que a vida podia oferecer. Aquele ruído incessante que me fazia certas vezes pegar um tapa ouvidos e enfiá-lo fundo dentro das orelhas para tentar amenizar a irritação estava ali quase todos os dias, como se Deus risse da minha desgraça e se divertisse com tudo que me infligia dor. E ali estava ela mais uma vez, me tirando de um mundo fantasioso criado pelo meu cérebro, onde não existia chuva nem filho por perto, às sete horas da manhã de um domingo. Um dos únicos dias que eu podia ficar esparramado pela grande cama king size que um dia tinha dividido com minha esposa vagabunda, desfrutando do descanso e longe dele. Do pirralho que me fazia lembrar dela todo santo dia da minha miserável vida.

Meu filho provavelmente estava esparramado no sofá assistindo televisão, com um pacote de bolacha maria jogada do seu lado, mastigando ela e espalhando farelo por todos os lados, e um copo de nescau do outro para ajudar a processar a comida. Como se a vida e Deus não tivessem me zoado o bastante, ele adorava acordar cedo. Antes de o sol raiar no céu (quando ele aparecia ao invés da chuva), o moleque já estava de pé e na frente daquele aparelho. Dormir é desperdício de tempo, papai, vivia me dizendo, com seu dedo indicador levantado como se fosse um sábio do século XXI filosofando sobre dormir demais ou qualquer outra bosta do gênero sobre desperdiçar tempo. E a vontade de fechar o pulso, pressionar os dedos contra a palma da mão, colocar toda força que tinha no músculo do braço e levar o punho na direção da cara do pirralho era descomunal quando ele agia daquela forma, como se fosse mais esperto do que o próprio pai.

Os traços que desenhavam o rosto do pirralho e emolduravam a imagem e semelhança da mãe dele me faziam arder em um mar de raiva que eu nem sabia que existia até a vagabunda nos deixar. Parecia uma cópia idêntica dela, não só na imagem como em todo o jeito de se comportar e existir. Quando ele sorria, via ela na minha frente, mostrando aqueles dentes brancos e felizes na minha direção quando achava graça de algo que eu dizia. Quando ele falava, parecia a voz dela e a forma de emitir o som das cordas vocais que ela possuía quando conversava comigo no dia a dia ou na hora de deitar-se na cama para enfim descansar. Ele era ela em miniatura. Uma criança que me lembrava dela todo santo dia. E me lembrava de que ela tinha me abandonado junto com ele, deixado aquele pequeno pedaço de carne humana para trás junto com o marido corno. Deixando a cópia dela na minha vida para me torturar com a lembrança de ter sido chifrado e deixado para trás todo santo dia, até que ele pudesse finalmente sair de casa e me abandonar também.

Tentei empurrar ele para meus pais e para os pais da vagabunda, mas nenhum aceitou. Tentei lares adotivos e também recusaram. Meu salário era suficientemente alto para dar conta de sustentar uma criança. Mas o problema nunca foi o sustento. Era aquela cópia infernal da minha ex esposa.

E foi na noite desse dia que eu vi uma oportunidade de me livrar dele. De arremessar o pivete para fora da minha vida com um pontapé tão forte que seria impossível ele voltar.

Naquela noite, Josué deixaria de respirar. Não sujaria mais minha casa. Não derramaria mais nescau pelo chão. Mas acima de tudo, não me lembraria mais de tudo que eu odiava na vagabunda e nele. E eu acordaria com um largo sorriso no rosto, contente por levantar e não me preocupar mais com as lembranças. No outro dia, meu coração pesaria alguns quilos a menos e as amarras que antes o comprimiam seriam soltas para que ele pulsasse livre mais uma vez.

**

O moleque passou o domingo inteiro dentro de casa, assistindo a filmes na NetFlix. Disso eu jamais poderia reclamar, apesar de tudo, ele não incomodava de forma alguma. Se eu não visse a vagabunda todos os dias estampada no rosto dele, me lembrando que eu tinha sido chifrado e abandonado, acredito que eu teria gostado de ser pai dele. O pirralho era inteligente e carinhoso. As vezes eu via tristeza no olhar dele quando eu o tratava com indiferença ou de forma grossa, e não vou mentir que em algumas dessas vezes eu me odiava por agir daquela forma com uma criança. Ele não tinha culpa dos atos da mãe. Mas eu também não.

Em certo momento eu me juntei a ele para assistir alguma coisa também. Tinha aproveitado o domingo para dar uma geral na casa. Depois de um banho sentei no sofá e logo ele se jogou em meu colo.

— Vamos ver um terror, papai?

Meu Deus, porque ele tem que falar igual a mãe?

— Vamos.

Ele me olhou nos olhos e deu um sorriso sincero e amoroso. Mas era o sorriso dela. Da vagabunda.

— Eu já até separei esse aqui ó. Vi nos comentários e a galera achou mó daora.

Sorri de volta, forçando os dentes em uma linha reta que provavelmente foi mal sucedida, pois ele baixou a cabeça e o brilho dos olhos sumiu. Ele se afastou de mim naquele momento, colocando-se do outro lado do sofá. Puxou sua cobertinha até o pescoço e com o controle remoto selecionou o filme.

Puta que pariu, eu devo ser um monstro mesmo. Como eu posso tratar meu próprio filho, sangue do meu sangue, desse jeito?

O coração pesou naquele instante. Aquele sentimento de ser um monstro me assombrava cada dia mais. Ele se mesclava com a raiva e com o amor. Em alguns momentos eu me lembro de chegar a ter rezado para que o ódio se fosse. Pois por mais que eu o odiasse com todas as minhas forças, eu sabia que ele não tinha culpa. Afinal, ele também tinha sido abandonado pela mãe. Nós dois deveríamos nos firma um no outro e continuarmos juntos. Porém, ele sofreu mais que eu no fim das contas. Ele foi abandonado pelo pai também.

— Vem cá garoto. Vem aqui com o pai — foi tudo que eu consegui dizer, me arrependendo logo em seguida. Pois ele sorriu, e aquilo me lembrou dela de novo. E a raiva tomou conta. Mas eu permiti que ele ficasse ali abraçado em mim. Vidrado com os monstros que ganhavam vida na tela da TV. Quando tomava um susto, ele se apertava em mim como forma de proteção. E quando eu não estava olhando para o pirralho, eu o abraçava também, para protegê-lo.

E foi assim, agarrados um no outro, emoldurando a pintura de uma família moderna do século XXI, que o início do fim da vida do garoto chegou. Não demoraria muito até que eu o arremessasse na direção da morte. Eu, pai do meu filho, entregando-o nos braços de seus assassinos.

Ouvi um barulho de vidro se quebrando na cozinha. Meu coração disparou. Só podia ser uma coisa.

Assalto.

O pirralho deu um pulo no sofá e falou baixinho:

— O que foi isso, papai?

— Fica quieto Josué.

Me levantei e fui na direção do som. Eu deveria ter sido mais esperto, deveria ter pego o pirralho e corrido pela porta da frente. Lembra que disse que eu ganhava bem? Minha profissão não é importante aqui, mas isso era de conhecimento de pessoas ruins. E ali estavam elas. E eu fui na direção dos bandidos.

Antes mesmo de eu conseguir ver algo da escuridão da cozinha, dois homens apareceram apontando uma arma para mim.

— Volta pra trás, e sem fazer barulho, senão eu estouro seus miolos aqui mesmo.

E eu os obedeci.

Eles não vestiam máscara e isso fez meu coração pulsar. Eles não nos deixariam vivos, senão poderiam ser pegos. Seríamos testemunhas de seus crimes. E só existe um fim para pessoas que ficam na mesma posição em que estávamos.

A morte.

Voltei para a sala e o pirralho se agarrou nas minhas pernas e afundou sua cabeça em minha coxa.

— Diz pra criança ficar calada também. Senão vocês dois vão virar tinta vermelha no meio dessa sala.

Eles nos amarraram e nos jogaram no banheiro. E foi aí o grande erro deles e a minha oportunidade. Uma gilette para cortar as fitas e a janela para fugir.

E eu deixei o pirralho lá, com a desculpa que eu voltaria com a ajuda. Ele ficou soluçando, pedindo para que eu o levasse com ele. Para que não o deixasse sozinho com os homens maus. Mas eu deixei. Foi a minha chance de me livrar dele de uma vez por todas. E foi isso que eles fizeram.

Quando voltei com a polícia a casa estava vazia. Vazia pois a única pessoal que ainda restava lá era o corpo do pirralho com um tiro no meio da testa, deitado no chão frio do banheiro.

***

Os primeiros dias foram um misto de alegria e tristeza. Me sentia culpado pelo que tinha feito, mas quando lembrava da vagabunda e de que o pirralho me lembrava dela, a culpa ia embora e eu ficava bem. Resolvi me mudar porque não aguentava mais fingir o luto. Um luto que existia apenas por alguns breves momentos. Eu estava livre das lembranças dela. Agora, eu poderia viver minha vida.

Grande engano.

Comecei a adoecer do nada. O cansaço começou a fazer parte do meu dia a dia. As dores de cabeça eram constantes. Aos poucos minha vontade de sair de casa foi diminuindo e no final dos meus dias eu já nem ia mais trabalhar.

Demorei para entender o que estava acontecendo comigo até que um dia ele falou.

— Oi papai.

Eu dei um pulo ao me olhar no espelho e avistar o pirralho montado na minha nuca.

Esfreguei os olhos a fim de tirar aquela imagem absurda da minha frente, mas ela continuava lá.

— Você disse que ia voltar, papai. Por que você me deixou sozinho com os homens maus?

Eu lembro de ter berrado. Sai correndo de dentro de casa e naquela noite eu me embebedei como há muito tempo não fazia. Disse para mim mesmo durante os goles que virava na mesa de um bar que tinha sido fruto da minha imaginação. O cansaço às vezes prega umas peças engraçadas na gente, não é? Talvez fosse a culpa, raciocinei. Talvez no fundo da minha cabeça a culpa de ter abandonado meu filho para a morte tenha criado aquela alucinação.

Mas era real. Ele estava lá. E aos poucos eu fui me acostumando com a presença dele.

— Viu papai, eu não sorrio mais como a mamãe. Agora você pode me amar.

Uma lágrima escorreu do meu rosto ao ouvir aquilo. Ele sabia. Claro que sabia.

— Não fica triste. Vem comigo. Nós podemos ser uma família agora. Só eu e você, passando nossas tardes de domingo juntos, assistindo aqueles filmes de terror e você me abraçando e me protegendo dos monstros.

E os dias se passavam com aquela mesma conversa sobre me juntar a ele. E o cansaço cada vez mais me consumia. No dia do fim da minha vida, eu entendi o porquê. Ele estava se agarrando aquele plano através das minhas forças. Desde a morte dele até ali, era a minha vida que o mantinha vivo também. Eu era a única coisa que ele amava e tinha e por isso ele não conseguiu seguir o caminho para o que fosse que existisse do outro lado após a vida.

E então resolvi seguir as palavras do meu filho.

Eu o amava de volta. Ele não me lembrava mais da vagabunda. Em nenhum aspecto ele se parecia com ela. Agora, todas as suas expressões, seu sorriso e seu olhar eram iguais aos meus. E um sentimento de amor, que eu jamais tinha experimentado, tomou conta de mim.

Subi as escadas do meu prédio na direção do terraço, de forma lenta e arrastada. Minhas forças estavam se esgotando, eu podia sentir. Eu me encontraria com ele e poderíamos ser uma família feliz. Era o que ele queria.

Era o que eu queria.

A noite estava deliciosa no dia da minha morte. A lua, uma bola de neve branca e gigante, nos iluminava na beirada do prédio, como se assistisse a todo aquele espetáculo, esperando pelo ato final. O ventou beijou meu rosto, se despedindo de mim e do meu pequeno.

— Te vejo logo papai. Já separei um filme bem legal para nós assistirmos. Os comentários falaram que ele é bom demais.

Eu sorri.

Ele desceu das minhas costas e se pôs do meu lado. Segurou minha mão, olhou para mim e sorriu.

— Não tenha medo. Não vai doer.

Eu olhei para ele, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto.

— Me desculpe Josué. Papai deveria ter te amado mais.

Ele sorriu de volta.

— Você vai ter tempo para se desculpar, papai. Agora pule.

Eu sorri mais uma vez. Pela última vez.

E pulei.

RESENHA – Apaixonado Coração Apodrecido

Apaixonado Coracao

Autor: Antony Magalhães

Páginas: 125

Onde encontrar: Amazon

Sinópse: Hugo assinou um contrato com a Mors e morreu. A empresa realizou o processo de zumbificação e ele voltou a viver. Quer dizer, teoricamente ainda está morto, mas andando por ai como se nada tivesse acontecido. Está um pouco podre e fede de vez em quando, mas não perdeu quase nenhum pedaço. Um ano após assinar seu contrato, ele já não tem tanta certeza se quer continuar vivo. A vida de um zumbi no Brasil é bem complicada. Os zumbis precisam enfrentar o preconceito e as dificuldades para se adequar na sociedade. A morte de Hugo muda quando faz novas amizades e juntos decidem desvendar crimes envolvendo a morte de outros zumbis já que ninguém mais parece interessado em investigar os crimes.

***

E se a morte não fosse mais algo tão importante na sociedade? E se as notícias sobre alguém que morreu já não fossem interessantes e a mídia quase nem falasse mais nisso? É assim o mundo onde Hugo, Melissa e Will vivem agora.

Uma empresa chamada Mors descobriu como trazer pessoas a vida após sua morte. Agora, quem tem um contrato assinado, não precisa mais se preocupar com o fim de seus dias. Basta assinar o tal contrato, morrer e ser trazido de volta como um zumbi (mas devemos deixar claro que eles não gostam de cérebro).

Hugo vive sua vida (ou morte, ou pós-vida) normalmente e começamos a conhecê-lo melhor no dia em que seu contrato de zumbificação vencerá. Ele está decidindo ainda se o renovará, pois a vida depois da morte não é assim tão interessante. Ele precisa passar vários produtos (criados apenas para zumbis), para dissipar o mau cheiro ou conservar mais sua pele e outras partes do corpo. E o pior é que é difícil arrumar um emprego como zumbi. Muitas pessoas (exceto os abutres, que não perdem tempo para tirar uma foto com um zumbi assim que o avista) não os vêem como algo bom e um novo grupo de preconceituosos surge: os zumbifóbicos.

Mas é nesse último dia que o coração de Hugo volta a pulsar (de forma metafórica), ao conhecer Melissa, uma zumbi que vai atrair os olhos (ou o olho, já que Hugo perdeu um faz um tempinho), e fazer com que o zumbi tome a decisão de assinar ou não a renovação do contrato. Nesse mesmo dia ele conhece Will, e os três se tornam bons amigos.

Mas a vida dos zumbis corre perigo. Alguém começou a matá-los novamente e a polícia não parece se importar muito com os assassinatos. Então os três resolvem dar uma de detetives e tentar achar o assassino.

Vou dizer que eu comprei o livro sem muita pretensão. Gostei da capa e do título e resolvi apostar. E a história ganhou meu coração. Ela é divertida, o romance é gostoso e a parte do mistério também prende demais. Sem falar que a ideia de viver em um mundo onde humanos e zumbis coexistem é espetacular de se imaginar.

Deixo aqui minha recomendação para esse livro que roubou meu coração. Que me deixou feliz ao ler e me deixou triste ao terminar. Já tô com saudade do Will, do Hugo e da Melissa.

 

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CONTO – POR MAL

voodoo

Lembro de ter pesquisado isso na internet. A maioria dos sites diziam que era apenas uma história e que não dava certo. Tive de buscar dentro da DeepWeb para receber o passo-a-passo de como fazer. O site dizia para eu preencher meus dados e enviaram para mim um contrato na qual eu deveria assinar com sangue. Acabei vendendo minha alma.

Eu estava desesperado pelo amor dela. Tentei de tudo: cartas, declarações de amor e surpresas, mas tudo que recebi em troca foram chacotas, tanto dela quanto de seus amigos idiotas. Já que ela não quis ser minha por bem, foi por mal.

Após eu assinar o contrato, as pessoas do site enviaram-me uma caixa com os materiais necessários para criar a boneca dela. Comecei pelo rosto. Costurei barbantes negros na parte onde seria a cabeça da minha amada, como se fossem seus lindos fios de cabelo. Nos olhos, pintei de um tom verde e os seus lábios desenhei com todo o cuidado, tentando representar a perfeição que realmente eles eram. Terminei minha boneca de voodoo em três horas, e ela funcionou.

Enquanto estou aqui sentado minha amada está ajoelhada, com aquela linda boca no meu pau. Cada vez que ela se recusa a atender aos meus desejos eu espeto, jogo longe ou torço a boneca, causando-lhe muita dor, a fim de mostrar que eu mando nela. Se não foi por bem, foi por mal.