1 – PRÓLOGO

 

A criatura encontrava-se deitada há milênios naquele local. Seu corpo, que um dia foi tão grande que preenchia aquele local escuro e úmido, encontrava-se com a metade do tamanho . Seu estômago roncava feito trovoada que ameaça colocar uma cidade inteira abaixo. Seus filhos não conseguiram comida. Os visitantes estavam cada vez mais escassos. Quem parasse na frente da caverna ouviria os lamentos de seu estômago.

Seu plano era expandir e crescer. Quando fosse tão grande que pudesse consumir outras pessoas e cidades, então ninguém poderia impedi-la. Fora trazida para aquele lugar para acabar com os humanos. Não fora a própria natureza que a moldara daquela forma? Mas os visitantes estavam cada vez mais raros. Amaldiçoava quem a tinha criado. Poderiam tê-la colocado em um local onde pessoas visitassem com mais frequência. Mas não. Fora jogada à própria sorte naquela cidade de nome horrível.

O certo era se alimentar uma vez por mês. Se fizesse mais refeições em um curto período de tempo corria o risco de explodir e evaporar. Então seguia a risca essa indicação (que não fazia ideia de onde viera também). Sua criação sempre fora uma mistério. Fora deixada ali, como parte da terra daquela gruta abandonada, com um corpo em cima do peito desnudo e um bilhete.

“Coma essa criatura em cima de seu corpo. Sua boca pode se abrir e seu estômago é capaz de engoli-la por inteira. Você é nossa salvação. Coma apenas uma vez por mês caso queira continuar viva. Coma apenas uma vez por mês e você ganhará o mundo. Tenha seus filhos e popule essa terra amaldiçoada. Dê poder a eles e crie mais filhos. Coma mais corpos. Domine mentes. Tome conta desse planeta e nos salve”.

Que diabos era aquilo ela não fazia ideia, mas achou por bem seguir a risca. Já passara anos sem comer um corpo se quer. Sem alimentar seu estômago faminto. Ou pior, sem nutrir sua mente.

Conforme os anos foram avançando, o homem foi dominando cada vez mais terras, até que alguém achou por bem fundar uma nova cidade em cima de onde ela habitava. Lago dos Cedros foi o nome dado ao local. Começou apenas com uma família que construiu sua casa nas margens do grande lago que encontrava-se no centro daquele lugar. Ela poderia tê-los devorado ali mesmo, mas se conteve. Por mais que a fome berrasse para que ela os comesse, não o fez. Precisava que a cidade crescesse. Necessitava que mais pessoas fossem até lá. Quanto tempo levou para que a cidade chegasse a dez mil habitantes, não saberia dizer. E foi então que ela começou seu plano.

8 – O Personagem da História

Quando Márcia cruzou a fronteira da cidade onde encontrou muitas viaturas de polícia e bombeiros, Marcos colocou a caneta de lado, orgulhoso de finalmente ter escrito a palavra fim.

E estava mais leve com o desfecho. Não era um final definitivo, por mais que parecesse. Sua personagem poderia viver novamente e estava feliz com isso. Era seu vilão, mas de certa forma não era um vilão ruim. Ela tinha os seus porquês e ele a respeitava por isso.

Olhou para fora e a paisagem ainda era a mesma. A cortina de neve descia sobre Lago Negro cobrindo qualquer visão. Ainda na cadeira, Marcos se espreguiçou e soltou um longo bocejo. Olhou no relógio e tomou um grande susto. Já passava das duas da manhã. Tinha perdido a noção de tempo, preso nas amarras da sua criação. Sua obra prima. De longe, o livro mais intenso que já criou um dia na sua carreira de escritor amador.

Levantou e levou as mãos à maçaneta da porta e ficou confuso ao verificar que estava trancada. Quando tinha feito isso? Não se lembrava de ter levantado para trancar a porta.

Deu de ombros e virou a chave. Caminhou até o quarto da mãe e ficou alarmado ao perceber que a cama estava vazia. Desceu as escadas e também não a encontrou lá. Foi até a cozinha e bebeu um copo de água enquanto pensava onde ela poderia ter ido. Era dia de semana. E mesmo que fosse sexta ou sábado, raramente ela saia de noite.

Lavou o copo e colocou-o no escorredor. Se dirigiu até a sala e quando abriu a porta, a menina estava do lado de fora, o aguardando.

***

Assim que Márcia saiu, ela sentiu algo estranho. Sentiu como se um novo fio a conectasse a alguém naquele lugar que ela acabou de destruir. E era uma conexão diferente. Não era o ódio e nem o amor. Era maior que os dois. Era como se seu criador a chamasse. Como se ele clamasse para que ela o encontrasse e que os dois pudessem conversar a respeito de sua origem. De sua natureza.

Ela seguiu aquele fio invisível. Passou por casas em chamas e por corpos no chão. Algumas pessoas ainda encontravam-se vivas, correndo de um lado para o outro em busca de uma nova vítima para batalhar até a morte.

Cruzou novamente a loja onde pegara sua primeira vítima.

Cruzou uma casa onde o corpo de uma homem e uma mulher pendiam pendurados por uma corda. Talvez tomaram aquela decisão ao perceber o caos que se instaurou na cidade. Porém, se os pobres soubessem que se não foram afetados, não morreriam naquele dia, jamais teriam feito tal ato. Ela lamentou por isso e disse a si mesma que da próxima vez os avisaria. Teceria mais uma rede, a mesma que criara os loucos e insanos, para unir os puros de coração. Para que vidas inocentes não fossem tomadas em vão.

Uma lágrima escorreu de seu rosto com a cena e mais uma vez ela foi pega de surpresa. Que sentimento era aquele que apertava seu coração? Tinha muito que aprender ainda sobre essas coisas. E o fio que ela seguia talvez esclarecesse algumas dessas coisas.

Chegou em frente a casa dele. Seu coração apertou. Estava na frente da fonte de suas respostas. E ela tinha tantas perguntas. Será que ele saberia respondê-las? Pensava que não todas. Talvez ele nem soubesse dela. Quem sabe não a criou por engano? Não importava. Estava ali e jogaria a sorte. E se ele estava vivo ainda, era uma boa pessoa. Um ser humano digno do novo mundo.

A luz de uma janela no segundo andar estava acesa. Ela ficou ali embaixo, com os pés enterrados em um metro de neve, observando aquele vão de vidro iluminado. Seu coração bateu mais forte.

Forçou os pés a se moverem, mas eles pareciam pesar mil quilos cada um agora. Ela caminhou devagar. Quanto tempo levou até andar aqueles dois metros até a porta, não sabia. Podia ter levado um minuto ou uma hora. E se ele tivesse o poder de apagá-la, assim como teve o de dar vida? E se ao descobrir sobre o que criou, perceber o monstro que trouxe para aquele mundo, ele a matasse? Porque ela sabia que as pessoas não a viam como algo bom. Para os humanos, ela era uma ameaça. Ela era a morte.

Pensou em virar a maçaneta e entrar, mas algo na sua mente pediu para que esperasse. E assim ela fez. Ficou parada por minutos na frente daquela casa desconhecida, com milhões de pensamentos percorrendo sua mente. Esperou até que ouviu passos. Seu coração ameaçou pular garganta afora. E então a porta se abriu.

***

Marcos levou um susto e deu um pulo para trás quando viu do outro lado uma pequena menina, de pés descalços e com apenas um vestido, sem nenhuma roupa de frio. Foi pego de surpresa e não estava esperando dar de cara com alguém ali do lado de fora. Ainda mais de madrugada.

Ela sorriu para ele.

Ele sorriu para ela.

O que era aquela conexão que estava sentindo em relação àquela estranha? Parecia que ele a conhecia.

— Está perdida?

— Há muito tempo.

Ele não respondeu. Ficou intrigado com as palavras dela.

— Desde a tempestade?

— Bem antes dela.

— Quer entrar? Podemos tentar ligar para seus pais.

Ela entrou.

— Espere aqui.

Marcos subiu as escadas e buscou no quarto de sua mãe um casaco quente que pudesse aquecer a pequena menina. Desceu as escadas correndo e entregou a peça de roupa para ela.

— Toma, você deve estar com frio.

Ela aceitou e se vestiu com ele, sorrindo de orelha a orelha.

Mais uma vez aquela sensação de amor inundou seu coração. Que estranho sentir-se assim com uma estranha. E essa sensação de conhecê-la muito bem era ainda mais estranha.

— O que quis dizer com bem antes da tempestade?

— Não saia correndo, por favor, mas acho que você me criou.

Ele riu, lembrando-se da época em que era criança. A imaginação na infância é uma coisa fantástica e por um momento ele sentiu uma nostalgia da época em que só se preocupava em ler seus livros e assistir seus filmes preferidos.

— Eu não tenho poder de criar ninguém, infelizmente.

Ela levantou-se e foi na direção dele. Pegou as mãos do garoto em suas e então ele viu. Sua história passando por sua cabeça. Da mulher gorda presa em sua caverna, dominando uma cidade e devorando humanos para que pudesse expandir. Para que pudesse purificar o planeta. Para que pudesse dar uma nova chance a raça humana.

Marcos se soltou das mãos dela e deu alguns passos para trás, quase caindo de bunda no chão ao tropeçar na mesinha de centro da sala.

— Impossível.

— Eu também pensava isso. Mas eu senti.

— Mas essa história só ficou pronta hoje. É impossível você ser ela.

A menina começou a chorar, mas eram lágrimas de felicidade.

— Ó senhor, obrigado por ter me criado e me dado esse papel tão importante.

Ele não respondeu. Seu rosto virou uma mistura de confusão e medo. E ela percebeu.

— Não tenha medo, por favor. Eu só quero respostas.

O garoto desabou no chão.

— Receio não ter. Acabei de descobrir que dei vida a um personagem …

E então um clique soou dentro de sua mente.

— O que você faz aqui em Lago Negro?

Ela sorriu mais uma vez e seus olhos brilharam junto. Por um instante ele pôde jurar ter visto chamas por detrás das pupilas da menina.

— Destruindo os que não merecem viver no novo mundo. Como o senhor me ordenou.

E então ele lembrou de sua mãe. E então a neve veio na sua mente. E o silêncio da noite. Um arrepio percorreu seu corpo. O medo invadiu seu ser.

— O que você fez?

— Matei e deixei viver quem merecia. Não foi pra isso que fui criada?

Marcos começou a se arrastar para trás com as mãos e chocou-se com a parede. Suor brotou em sua testa e escorreu por seu rosto. Ele deu vida a um monstro. Um ser malígno. Um ser destrutivo.

— Onde está minha mãe? — murmurou, mais para si do que para a convidada.

Mas ela respondeu.

— Receio que não viveu.

— Você não pode fazer isso. Não pode matar os outros a própria vontade. Você é uma história, e as histórias têm liberdade para isso porque são ficção. Nenhum inocente morre lá. É tudo ficção — berrou, com lágrimas escorrendo rosto abaixo ao ouvir as palavras da garota. — Se foi eu que te criei, exijo que você pare tudo isso. Suma, se exile, volte pra sua caverna. Deixe os humanos em paz.

Ela não falou nada. Ficou para onde estava. Seu rosto estava contraído. As palavras dele a machucaram. E o que ela sentiu ao encontrar seu criador se transformou em amargura. Foi rejeitada. Acreditava que tinha achado mais do pote do amor. Se enganou.

Levantou-se e foi na direção da porta. Antes de sumir em meio a cortina de neve, disse:

— Que pena que pense isso de mim, meu senhor, meu Deus e meu criador. Eu não tenho coragem de tirar sua vida e nem sei se existiria mais, caso fizesse. Porém, ainda vamos nos encontrar mais uma vez. Nesse mundo ou em outro. E espero que suas palavras da próxima vez sejam de desculpas. Histórias podem ser mais do que ficção. E acredito que no fundo você saiba disso também.

E então sumiu. Horas depois a neve se foi também. E da cidade que um dia existiu, apenas a casa de Marcos permaneceu de pé. Quando os bombeiros e policiais chegaram, encontraram apenas cinzas e neve derretendo.

E aquela casa intacta.

Quando abriram a porta, encontraram ele no mesmo local que estava quando a menina deixou o lugar. Mas palavras não saiam de sua boca. Reação não existia em seu corpo. Estava em choque. E ficaria assim por muitos anos. Talvez até o fim de sua vida.

Ela se foi e espera pelo próximo chamado. Pelas próximas vítimas e pelo reencontro. De seus olhos, lágrimas escorrem feito uma torneira aberta que nunca cessa. Pela neve que a acompanha, uma trilha se forma atrás dela em meio as pegadas de seus pés. A marca da amargura e da rejeição em forma de água expelida por seus olhos.

Ela chora.

Ela caminha.

FIM.

[WATTPAD] – Finalmente, Embaixador :D

 

 

Então, hoje eu tô liberado pra divulgar as news.

Esse ano fará 3 anos que completo meu caminho dentro do WattPad, e foi essa ferramenta maravilhosa que me aproximou de pessoas incríveis, escritores e leitores, e me fez evoluir de uma forma absurda em tão pouco tempo. E hoje, dia 2 de Julho de 2018 eu inicio mais uma etapa dentro dessa plataforma: virei Embaixador. Ainda não sei ao certo o meu papel dentro dela (porque é algo que ainda está sendo discutido lá), mas espero ter muito o que contribuir com todos ali.

Se tô feliz? PRA CARALHO! Então é isso, agora tenho mais uma desculpa pra dizer que não tenho tempo de escrever pros leitores uheuheuhe

7 – A Fuga da Cidade

O banho durou alguns minutos e Márcia deixou a menina debaixo da água quente e aconchegante por mais tempo do que precisava. Percebeu que ela estava gostando da sensação de aconchego, do calor e do movimento da espuma de banho que a limpava.

Volta e meia a menina sorria e a mulher sentia-se a pessoa mais sortuda do mundo. Sabia que no outro dia teria de encontrar os pais dela, mas só de provar um pouco da sensação de ser mãe, de cuidar de uma criança, já era suficiente para o momento. O amanhã era outro dia e ela apreciaria aqueles instantes o máximo que pudesse.

Tirou a garota do chuveiro e a secou. Levou-a até seu quarto onde revirou no guarda roupa atrás de peças quentes. Tudo era grande demais para a menina, mas acreditava que isso não a incomodaria. Estaria quente e segura dentro de uma casa.

E então foi desperta do seu casulo de amor e paixão pelo marido. Ele entrou correndo dentro do quarto, abrindo a porta com um chute.

— Tá louco Bruno? Olha o que fez com a porta.

Mas ele não respondeu. Encarou a mulher com ódio no olhar e com a boca espumando.

— O que você tem?

O homem deu um passo para a frente.

— Se afasta daqui seu babaca. Você não vai fazer mal à essa garota.

E então pela primeira vez desde que entrara na casa, a menina falou.

— Não é a mim que ele quer fazer mal. É a você.

A mulher a encarou com dúvida e receio.

— Como assim?

A menina pegou a mão da mulher com ternura.

— Não se preocupe. Não vou deixar que ele te machuque.

A voz dela era carregada de uma forma tão adulta que por um momento Márcia se lembrou daquele filme onde os pais adotaram uma menina que no final descobriram ser uma mulher bem mais velha que parecia uma criança. E pela primeira vez desde que a encontrara, sentiu medo. E a menina também sentiu o medo dela.

— Não fique assustada.

E então envolveu a mulher em um abraço.

E como num passe de mágica Bruno deu as costas as duas e saiu correndo da casa.

— O que foi isso? Por que ele desistiu?

— Eu não sou uma criança. Sou algo além disso que nem eu entendo direito ainda. Minha natureza é limpar a terra das pessoas ruins e poupar as boas. E você me mostrou o que é o amor puro. O amor ao próximo.

Márcia estava incrédula e começou a se afastar da menina. Ela sorriu.

— Eu entendo seu receio, mas tenha a certeza que você viverá hoje. E você será mãe, como tanto deseja. Esse seu sentimento precisa ser compartilhado e espalhado. E eu tô aqui pra te salvar.

A menina pegou ela pela mão mais uma vez e a conduziu para fora da casa. Marcia não sentia frio, mesmo sabendo que a temperatura agora deveria estar abaixo de zero.

Se assustou com a cena que os olhos conseguiam enxergar quando chegava muito próximo. Quase tropeçou em um corpo estendido sem vida no meio da estrada.

— Oh meu Deus, o que aconteceu aqui?

— É a limpeza. Eles eram maus. Não mereciam viver. Seu marido também era. Você nunca se perguntou o porquê de nunca ter engravidado?

Márcia parou os passos.

— Como assim? O médico disse que meu útero era muito fraco para ter um filho.

— Ele mentiu e ajudou seu marido com um remédio abortista. Eu li tudo isso na mente dele. Ele não desejava ter um filho e foi a maneira que encontrou para dar um fim nos seus desejos maternos.

A mulher começou a chorar, lembrando-se das três crianças que perdeu e dos três filhos que poderiam estar com ela caso aquilo não tivesse acontecido. Podia acreditar na menina? De certa forma achava que sim. Mesmo que tudo ali parecesse uma história de terror e irreal, acreditava nas palavras dela.

— Então quer dizer que eu posso ser mãe — foi tudo que conseguiu dizer e depois as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto e colidirem com o chão gelado.

A menina a abraçou mais uma vez e Márcia sentiu novamente aquela sensação de amor.

Uma claridade começava a tomar conta de vários pontos e ela conseguia ver através da cortina de neve onde o local tornava-se mais claro.

Fogo.

— Oh meu Deus, a cidade vai queimar. Tudo vai ser reduzido a pó.

A menina pegou-a pela mão e a levou para dentro mais uma vez.

— Amanhã de manhã só restará as cinzas desse lugar. Os restos dos moradores poderão ser encontrados junto com as cinzas das casas e das árvores, mas acho que ninguém jamais procurará por isso. Será um mistério não resolvido e tenho certeza que você não falará sobre ele. Preciso chegar do nada e partir da mesma forma.

E então uma última provação passou pela cabeça da menina. Seria a prova final, para ver se a mulher realmente era tudo aquilo que aparentava.

A janela da sala se estilhaçou e uma mulher ensandecida se pôs para dentro. A mesma espuma que escorria pela boca do marido de Márcia estava presente na estranha.

— É uma das suas também?

A menina negou.

A mulher avançou na direção da criança com ódio no olhar e as mãos estendidas tentando buscar o pescoço dela.

Márcia foi mais rápida do que jamais pensaria que poderia ser. Os reflexos maternos estavam lá. Antes que a estranha pudesse alcançar sua protegida, um vaso de cerâmica a acertou na cabeça, deixando-a sem vida no chão.

A mãe de Marcos estava morta.

Márcia tinha passado no seu teste final, sem nem saber.

***

— Tem certeza que não deseja vir comigo? Esquecer da sua natureza e desfrutar de uma vida livre de toda essa matança?

— Tenho. Minha natureza me diz que é isso que devo fazer. Ele me criou para isso.

— Quem é ele? Deus?

— Uma espécie de Deus, sim. Talvez um enviado do próprio que vocês chamam de Deus. E eu sinto que ele está aqui. Preciso ficar e talvez encontrar algumas respostas.

A mulher assentiu. Antes de entrar no carro, envolveu a menina em seus braços por longos segundos e então beijou-a na testa.

— Então se cuida. E obrigado por tudo.

— Vá em paz. Quem sabe a gente se encontre por aí mais uma vez e você me apresente seus filhos verdadeiros. Existem outros mundos, Márcia, e talvez eu possa lhes apresentar quando tudo estiver completo aqui.

A mulher sorriu. Entrou no carro e virou a chave na ignição. Não sabe como conseguiu sair dali em meio aquela cortina branca e ruas cheias de corpos, mas no fundo sabia que a menina a guiava. Estava feliz.

Finalmente a esperança da maternidade se fazia presente. Ela poderia ser mãe, e seria em um futuro não muito distante. Seria mãe dos seus e dos que foram abandonados pelos pais. Seu amor era tão grande que não se contentava apenas com suas crianças. Precisava mostrar as que foram deixadas de lado que a vida podia ser boa.

6 – Enlouquecidos

Então aquilo era amor. Agora, mais do que nunca, tinha a capacidade de julgar os escolhidos e os condenados.

Fechou os olhos por alguns segundos, enquanto a mulher passava uma esponja quente por seu corpo, e os avistou.

Encontrou todos os maus da cidade dentro de sua cabeça e os ligou como uma teia de aranha. E então o mau foi instaurado. E eles próprios acabariam uns com os outros.

***

Marcos está sentado mais uma vez na sua mesa em frente ao seu caderno aberto, mas a caneta em sua mão não está criando palavras. Ela se move de um lado para o outro, pelos movimentos dos dedos do rapaz.

Ele encara o branco que se encontra do lado de fora da cidade, tentando fazer alguma ligação com sua história. Mas não encontra. Não tem neve lá.

O vento bate contra o vidro, agora fechado, e o barulho é gostoso. É inspirador. Ele baixa os olhos para o papel e continua de onde parou. Sobre a mulher gorda na caverna.

Ele ainda não compreende seu sentimento em relação aquele personagem, e teme o fim dela. Não sabe ainda se a criatura é boa ou ruim. As vezes ele concorda com as ações dela, as vezes não.

Suspira, mas a mão continua a escrever. As palavras parecem fluir de seu inconsciente de forma automática. Nem precisa pensar. Só escrever.

Ele nem percebe os barulhos no andar debaixo e nem os sons de berros do lado de fora da casa. Está em transe.

Sua consciência diz para que ele tranque a porta e ele nem se pergunta o porque. Apenas se levanta e faz. Depois volta para a mesa e continua a escrever. Se continuar nesse ritmo, logo terá um fim para sua criação. E ele teme o fim. O fim dela, não dos outros. Ele a ama?

Seus ouvidos não captam o barulho de batidas na porta. Uma bolha anti-ruído para envolver o garoto. As batidas continuam e depois cessam. Quem quer que quisesse entrar lá, desistiu.

E agora se encontra na rua. Sua mãe está enlouquecida. Assim como os outros moradores. E ele nem percebe que jamais a verá de novo. Nem com vida, nem seu corpo.

***

Um cenário de guerra se instaurava do lado de fora das casas de Lago Negro, em meio a cortina branca da nevasca.

A mãe de Marcos saiu correndo escada abaixo, após tentar abrir a porta do quarto do filho a ombradas. Não entendia o porquê de tanta raiva, mas queria socar o filho até abrir a cara dele em duas partes e ver o sangue jorrando pelo rosto dele.

Mas ela amava o garoto. Por que desejava aquilo?

Não fazia ideia. Só sabia que de um momento para o outro, uma raiva descomunal tomara conta de seu ser.

Percebendo que não conseguiria por a porta abaixo, desceu as escadas correndo e se jogou para fora da casa, procurando por alguém para bater.

E achou várias pessoas que já se encontravam brigando. Alguns corpos caídos, sem vida, jaziam no chão.

E ela chegou contra os que ainda estavam de pé, de punhos fechados e desferindo socos.

Seus pulsos doíam com a força com que socava rostos e corpos. Seu rosto doía com os socos e pontapés que recebia.

Sangue pintava a neve branca.

Gritos ecoavam pelas ruas da cidade insana.

Sentiu vontade de morder. De provar da carne humana e de sangue quente. Abriu os punhos e a boca e mordeu.

Outros fizeram o mesmo.

Só ela ficou viva daquele grupo da sua rua.

Saiu correndo em busca de mais.

E tinha mais ainda.

Eles lutariam sem nem saber o porque durante algumas horas.

E enquanto isso, a menina estaria amparada pela mulher no aconchego quente da casa,

envolvida pelo manto do amor.

“Se matem. Dêem fim as suas miseráveis vidas. Vocês não merecem viver” dizia ela na mente dos moradores. Era um truque que aprendera há muitos anos. O controle mental era uma de suas armas desde o início da sua criação.

E assim ela ficou enquanto a cidade era reduzida a poucos sobreviventes ensandecidos. Ansiosos por sangue e por carne.

E ela sorria, mas não pela carnificina. Sorria pelo amor da mulher.

5 – Um Resgate

O desejo da maternidade fazia parte de Márcia desde muito cedo, quando ganhou sua primeira boneca de presente dos pais. Não sabia dizer o porque aquela vontade de ser mãe existia, mas tinha plena certeza de que tinha nascido para aquilo.

    Mas a vida parecia não concordar e ela e o marido falharam em inúmeras tentativas.

    Seu útero era fraco e não aguentava mais do que três meses de gestação.

    Já tinha perdido três bebês e sempre no mesmo período. Três meses.

    Márcia chorava escondida entre os corredores da casa. As vezes a tristeza era tanta que tinha de se trancar no banheiro, com o chuveiro ligado, para abafar o som dos soluços. O marido odiava quando ela chorava. Ele não tinha pretensão de ser pai e ela sabia que ele dava graças a Deus por a mulher não conseguir parir um filho.

    De uns tempos para cá ela decidiu que desistiria da ideia de ter um filho do próprio sangue. Os médicos tinha dito que era impossível. Que jamais conseguiria. Mas ela ainda queria ser mãe e a adoção começou a fazer parte de seus pensamentos diários.

    Porém Bruno discordava. Não queria ser pai e foi pego de surpresa com a nova ideia da mulher.

    — Não vou trazer alguém que não é do meu sangue pra dentro dessa casa. Pode esquecer.

    — Mas eu quero ser mãe. Eu preciso.

    — Você precisa é lavar aquela louça que tá suja faz um dia na pia.

    Márcia virava a cara e ia para o banheiro. Não alongava as discussões e a cada dia que se passava, pensava em fazer aquilo sozinha. Pedir o divórcio, dividir os bens e criar seu filho da melhor maneira possível.

    Existiam tantas crianças abandonadas por aí. Não entendia como um ser humano era capaz de fazer algo desse tipo, mas quem sabe Deus não quis que ela fosse mãe biológica justamente por isso? Para ajudar e amparar os que foram deixados para trás. Para mostrá-los que a vida ainda podia ser boa. Que nem todos eram maus daquela forma.

    Era diretora de uma empresa de tecnologia na cidade vizinha. Seu salário era muito bom e não necessitava do marido para aquilo.

    Ela o amava ainda? Achava que sim. Porém a vontade de ser mãe era maior que qualquer amor. E se o preço para aquilo fosse abandonar a vida de casa, que assim fosse.

    Quando a nevasca chegou ela estava sentada na poltrona da sala, lendo um de seus livros sobre maternidade. Estava mais preparada que qualquer outra mãe em qualquer lugar do mundo pudesse estar. Já lera tanto
sobre o assunto que às vezes sentia que tinha um filho. Mesmo sabendo que era apenas fruto de sua imaginação. Tinha dias que se pegava conversando sozinha, como se estivesse falando com alguma criança. Algumas dessas vezes até acreditava que estava ficando doente da mente de tanto que ansiava por aquilo.

    O livro daquela noite era um álbum de recortes que ela mesma montara, cheio de recortes de revistas e livros, com crianças e seus pais formando uma família. Era seu álbum dos sonhos. O álbum que desejava ser realidade.

    Não tinha saído para ver a neve. O marido encontrava-se do lado de fora e às vezes chamava por ela para que juntos apreciassem o fenômeno inédito que acontecia em Lago Negro. Porém ela não o atendia.

    Ele entrou depois de alguns minutos do lado de fora, avisando que a neve tinha ficado mais intensa e o vento mais frio e quase insuportável, mas ela nem deu atenção. Seus olhos contemplavam as imagens e as crianças sorridentes das fotos.

    Porém um choro tirou-a do transe. Um choro de criança. Seu coração disparou de dentro do peito. E se uma criança estivesse perdida em meio aquela nevasca? Perdida dos pais e entregue a própria sorte.

    — Você ouviu esse choro?

    — Não ouvi, mulher. Tá imaginando coisa de novo?

    Márcia não respondeu.

    Ficou sentada, atenta aos sons que vinham do lado de fora. E o choro ecoou mais uma vez.

    — Tenho certeza que tem uma criança chorando. Perdida lá fora.

    — Mulher, para com isso. Você vai ficar louca com essa fixação por criança e maternidade.

    — Cala a boca Bruno.

    O homem congelou. A mulher nunca falava daquela forma com ele. Nem quando ele a tratava de forma ríspida e grossa.

    Ela levantou-se do sofa e se enrolou em sua coberta. Abriu a porta e andou em meio ao branco que era toda a nevasca do lado de fora.

    O marido ficou parado, perplexo com a mulher.

***

    Márcia não conseguia enxergar nada. Seus olhos avistavam apenas a cor branca e nenhuma forma. Nem sabia mais a direção da sua casa. Estava perdida no meio da nevasca (mesmo que a alguns metros da porta de casa), mas não sentiu medo. Sua natureza materna gritava mais alto.

    — Tem alguém aí?

    Nenhuma resposta. Ficou parada, aguardando mais uma vez pelo choro.

    E ele veio.

    Ela seguiu o som.

    — Continue falando para que eu possa ir até você. Não consigo ver nada, mas posso seguir o barulho.

    E a criança atendeu. Continuou chorando até que Márcia a encontrou.

***

    Ela estava do lado de fora da casa da mulher e podia sentir o anseio dela. Queria um filho. Precisava compartilhar seu amor com uma criança, e isso a entristeceu (e a pegou de surpresa). Achou que tinha sido atraída até lá pela maldade, mas foi o contrário. Encontrar o bem também fazia parte de sua natureza? Agora acreditava que sim.

    Forçou um choro para testar a mulher.

    E para sua surpresa, ela veio em busca da criança perdida. Dela.

    Ouviu as palavras para que continuasse chorando. E assim fez. Precisava entender mais sobre aquele novo sentimento. Achava que só tinha experimentado uma parte do amor em relação aos seus filhos. Mas aquele ali era diferente. Era mais forte e mais intenso.

    E então a mulher chegou. Abaixou-se em sua frente e a abraçou.

***

    — O que faz aqui perdida, criança? E ainda só de vestido. Vai pegar uma pneumonia assim.

    Márcia a abraçou e depois pegou-a no colo. Não sabia onde estava sua casa, mas por um milagre (ou ajuda da menina, ela pensaria depois), encontrou a porta ainda aberta.

    Bruno estava sentado no sofá assistindo TV, como se a mulher não tivesse se embrenhado no meio da tempestade. Sem se preocupar que ela pudesse morrer congelada, perdida sem conseguir retornar para o aconchego do lar.

    Quando ela entrou para dentro de casa, deixou o controle escorregar da mão.

    — Que porra é essa Márcia? Quem é essa menina?

    — Era ela que estava chorando, seu sem coração. Eu falei que tinha ouvido choro de criança.

    — Márcia, coloca essa menina pra fora já. Não quero problemas com policia achando que sequestramos o filho de alguém.

    — Tá louco Bruno? Tá achando que ela é um animal pra ser abandonado do lado de fora com essa tempestade toda? Olha só pra ela. Ela ia morrer congelada lá fora.

     — Isso é problema dos pais dela, não nosso. Bota ela pra fora já.

    — Cala a boca e vai assistir sua TV. Assim que essa nevasca passar vou ligar para o delegado avisando que encontrei uma criança perdida.

    — Márcia, não me desafie.

    — Senão o que? Vai começar a me bater agora?

    Bruno não disse nada. Encarou a mulher com os olhos flamejantes, tentando impor algum medo, até que se deu por vencido.

    — Que seja. Mas eu não vou chegar perto disso aí nem fodendo. Sua responsabilidade.

    A mulher subiu as escadas ainda com a menina em seus braços. Daria um banho quente nela e depois procuraria algo mais quente ainda para ela se vestir.

    Enquanto seus pés caminhava na direção do banheiro, pensamentos cruzavam por sua cabeça. Como ela se permitiu casar com um homem tão insensível e sem coração feito aquele, que tratava uma criança desamparada como um animal qualquer. E mesmo um animal deveria ser abandonado do lado de fora de um lar quente em uma noite como aquela.

    Seu coração estava mesclado de ódio e amor agora.

    E a menina sentia aquilo. Mas era um ódio bom. Um ódio que não a obrigava a levar a mulher consigo. Estava descobrindo mais sobre o amor, e agora entendia que ódio e amor às vezes andavam juntos. Às vezes se complementavam.

    Durante todo o banho ela não parava de encarar a mulher, tentando entender tudo aquilo. Essa descoberta atrasaria um pouco seus planos, se ela não tivesse uma carta nas mangas.

    Enquanto a mulher cuidava da menina, a cidade enlouquecia. A neve não era mais o perigo. Os moradores eram.

4 – A Nova Moradora

Saiu da loja pelo buraco aberto por sua vítima. Ouvia a voz dele dentro da sua cabeça, implorando por misericórdia. Mas ela não tinha pena. O que estava feito, estava feito.

Passou pelo carro abandonado do homem, ainda com a porta aberta, esperando por seu condutor que nunca mais voltaria.

Voltou a sua forma natural de garotinha. Afinal, sua próxima vítima clamava por isso. Por uma criança.

Seus pés marcavam seu caminho pela neve que agora ficava cada vez mais densa e alta nas ruas daquele lugar, denunciando de onde o mal tinha vindo e para onde ele ia.

Passou por famílias que se divertiam em meio aquela confusão, incapazes de pensar que o fenômeno fosse algo relacionado com o sobrenatural. Que a neve trazia a morte e o fim de suas vidas. Não sentiu-se triste. Tristeza não fazia parte de sua natureza. Apenas selecionar os bons e os ruins. A nova terra estava sendo formada e era só isso que a preocupava. Era isso que a movia.

Ninguém pareceu prestar atenção na pequena garota, coberta apenas por um vestido em meio a todo aquele frio. O termômetro que a poucas horas marcava 35º agora exibia uma temperatura de 2º. Mas ela não tremia. Se alguém tivesse olhado na direção da rua e visto a menina que parecia transitar sem nenhum problema, de pés descalços e quase sem roupa, talvez tivesse pensado que algo estava errado. E talvez tivesse pego o carro e ido para longe da cidade a tempo de salvar sua vida (ou adiar sua morte). Porém ninguém o fez. E ela seguia o chamado da mulher.

A neve começou a intensificar assim que os passos dela percorriam a extensão das ruas. As pessoas começaram a se assustar com o vento que aumentava e com o frio que agora machucava. Os dentes dos moradores agora não mostravam um sorriso, mas chocavam-se um contra o outro, advertindo seus donos de que ali fora não era mais aconchegante e seguro.

Pouco a pouco os pátios das casas começaram a ficar vazios mais uma vez.

A nevasca aumentou e pelas janelas os moradores apenas avistavam uma imensidão branca. Nem a rua e as árvores podiam ser avistadas agora.

A diversão tinha acabado e o medo agora tomava conta da atmosfera de Lago Negro.

E ela sentia o medo.

E ela sorria.

E caminhava na direção do chamado da mulher. Da vítima. Do alimento.

Capítulo 3 – Coisas Estranhas Vêm com a Neve

A brisa agora soprava pelas ruas da cidade. As pessoas se amontoavam do lado de fora das casas, vestindo as roupas de frio que encontravam e com cobertores por cima dos ombros como complemento para ficarem protegidos.

As lojas não tinham roupas mais quentes e nem estavam preparadas para aquilo.

Ninguém estava.

Foram pegos de surpresa. Lojistas e moradores.

Mas os olhos de Ângelo não brilharam por causa da neve. Brilharam pela oportunidade que ele teria nos próximos minutos de roubar aquela Smart TV de 55″ que ele tanto queria, sem que as câmeras da cidade conseguissem vê-lo, e muito menos os moradores distraídos com o estranho fenômeno que caíra sobre Lago Negro.

Só de pensar nos pornos e filmes de ação que poderia assistir naquela imensidão que seria a televisão fez seu pau endurecer dentro da calça.

Sorriu para a janela, encarando seu próprio reflexo.

— As gatinhas virtuais te esperam, gostoso — falou para si mesmo, dando uma piscada antes de se retirar. Nem passou pela sua cabeça que deveria vestir algo mais quente, afinal, não estava acostumado com neve.

O que imaginara estava realmente acontecendo. Entrou no carro e então cruzou a rua da sua casa como se fosse um fantasma.

Passou por Marcos e sua mãe que pareciam duas crianças bobas de braços abertos, olhando para o céu.

As pessoas encontravam-se do lado de fora, fazendo bonecos de neve ou atirando bolas uns nos outros. Ficou feliz ao perceber isso e pressionou o acelerador. Não poderia perder essa chance. Com seu salário mínimo conseguiria comprar uma daquelas só dali dez anos. Era sua chance. O Destino lhe dando um presente.

Reginaldo, o proprietário da pequena loja (e seu amigo de bebedeira nas sextas-feiras a noite) não sentiria falta daquele objeto. Ele tinha seguro, e Ângelo sabia disso. No outro dia ele só pegaria o telefone, avisaria do ocorrido e depois de alguns dias teria seu dinheiro de volta.

Mas Ângelo lembrou que se convidasse o amigo para ir na sua casa, teria de esconder sua belezinha.

Atravessou o bairro com o ponteiro marcando 80km/h. Nem pensou no perigo que corria ao dirigir sob uma superfície cheia de gelo, com um carro não preparado para aquilo.

Mas o destino estava do seu lado. Ela estava do seu lado. Ela sentia o homem e sua índole. E ela o esperava.

Passou pelas ruas como o espírito de alguém que há tempos já havia partido e não pudesse ser avistado por olhos humanos. Estacionou o carro em frente à loja (ajudaria na fuga rápida). Deixou o motor ligado e a porta aberta. Seria vapt e vupt. Entrar, pegar o brinquedo e ir pra casa. Ninguém saberia. Só ele e a neve que caia.

Porém a neve era ela. E ela sorria escondida em um canto escuro da loja, esperando pelo homem. Lendo seus anseios e o seu ser.

Colocou a mão sobre a maçaneta da porta com a esperança de que estivesse aberta e não precisasse quebrar o vidro da vitrine, causando mais prejuízo para seu amigo. Mas como suspeitava, estava trancada.

Voltou até o carro e do porta-malas retirou a chave de rodas e sem pensar duas vezes, arremessou-a contra o vidro.

O barulho foi alto e por um momento ele pensou em fugir. Outras pessoas poderiam ouvir e irem de encontro ao som emitido pelo vidro se esparramando contra o chão. Ficou parado por quase um minuto, esperando para ver qualquer movimento pelas ruas.

Continuava vazia.

Então a imagem da TV na sua sala encheu-o de coragem mais uma vez e ele se pôs a andar de forma apressada. Tentaria ser o mais rápido possível. Não desejava ser preso e conhecido na cidade como um ladrão oportunista. Ele não era ladrão. Só queria uma TV que era cara demais para o seu mísero salário.

Entrou pelo buraco agora aberto no recinto. O som da bota esmagando o vidro no chão acendeu mais uma vez o alerta em sua cabeça. Mas era tarde agora. Estava feito.

Sabia onde o objeto de desejo se encontrava. Já parara naquele lugar para o admirar por muitas e muitas vezes. Passou pelos corredores que o levariam à sua mina de ouro. Quanto estava quase chegando seu coração congelou.

“Reginaldo está aqui, estou fodido”, pensou, com os pés cravados no piso da loja.

Uma figura se encontrava atrás do balcão nos fundos, onde Reginaldo levava os aparelhos para os clientes.

Ficou parado, observando a forma que não se mexia. Seus olhos começaram a se adaptar à escuridão e um alívio percorreu todo o seu corpo. Era a silhueta de uma mulher. Podia dar um jeito naquilo. Talvez ela nem visse quem ele era.

Se aproximou da TV. Ia pegá-la e dar o fora. Foda-se quem fosse. Mas outra coisa que seus olhos enxergaram o fez mudar de ideia.

Os seios dela. Grandes e redondos. Expostos.

Será que via certo? Não era o escuro lhe pregando uma peça?

Acreditava que não.

Esqueceu a TV por uns instantes e começou a andar na direção da estranha.

— Ora ora, o que uma dama faz aqui perdida numa hora dessas?

Ela não respondeu.

Agora mais perto ele podia ver os dentes da mulher formando um sorriso sedutor.

— É tímida, senhorita?

Ela balançou a cabeça em uma afirmativa.

— Não tenha medo. Eu tô aqui pra ajudar. Tá perdida?

Ela negou.

A mulher começou a se mover de forma elegante. Saiu de trás do balcão e fez com que o membro de Ângelo quase explodisse dentro da calça. Estava completamente nua.

— Olha moça, assim fica difícil para um cavalheiro se segurar e não aprontar com a senhorita.

Ela sorriu e com a mão fez um sinal para que ele fosse na direção dela.

E ele foi, sem saber que a morte o esperava.

Se pôs na frente dela e as mãos da mulher foram direto para a camisa do homem, retirando-a.

Ela baixou os olhos, fingindo uma reação de timidez.

Aquilo fez Ângelo quase goz*r nas calças.

A mulher repetiu o mesmo com a calça e a cueca do homem e em questão de minutos os dois estavam completamente nus, cobertos pela escuridão da loja de Reginaldo.

— A senhorita não fala? Eu adoro quando as mulheres imploram por uma pica.

A mulher apenas sorriu.

— Ok então. Acho que isso não faz tanta falta.

Ela deitou-o no chão e ele obedeceu sem pestanejar.

Ela montou em cima dele e logo começou a cavalga-lo.

O homem gemia.

Ela sorria.

Sentia a energia dele sendo drenada. Pouco a pouco. Fazia movimentos para frente e para trás. Nunca tinha feito sexo na vida, mas sua natureza conhecia aquilo. Afinal, ela era tudo aquilo. Ela começou a ir mais rápido e mais rápido.

O homem se animou no começo. Mas depois começou a ficar estranho. Seu pau começou a ferver. E depois a doer. Ele pediu para ela parar, mas a mulher apenas sorria.

Mas o sorriso agora não era tímido. Era maníaco.

Ele tentou empurrá-la para longe, mas a mulher parecia pesar mil quilos e não se moveu um centímetro.

Ele deu um tapa no rosto dela, mas a estranha não reagiu de forma alguma.

Tentou um soco, sem sucesso.

Começou a berrar por socorro.

Todos da cidade estavam distraídos com a neve e ninguém ouviu os clamores dele. E se alguém ouviu, pensou que fosse o som de divertimento de algum outro morador de Lago Negro.

Pouco a pouco o homem foi sendo sugado. Suas entranhas começaram a ser puxadas de dentro dele pelo canal urinário. E ele urrou de dor. Foi sugado de dentro pra fora e em menos de cinco minutos, seu sonho de possuir uma TV ou de comer aquela linda e estranha mulher tinham desaparecido para sempre.

Ela levantou-se.

E antes que pudesse pensar em correr atrás de outra vítima, a vítima a chamou.

E ela sorriu mais uma vez.

Capítulo 2 – A Chegada da Neve

Marcos encontrava-se em seu quarto, preso nas folhas de seu caderno onde escrevia seu novo romance. Decidira por usar papel e caneta depois de frustradas tentativas em fazer aquilo direto no computador. O dispositivo eletrônico era cheio de tentações, que insistiam em puxar sua atenção para fora do mundo em que tanto se esforçava para criar, como os tentáculos dos monstros de Lovecraft puxavam suas vítimas, tornando-se quase impossível de se desprender.

E estava dando certo.

Pelos cálculos dele, já passara da metade da história. Seus personagens agora eram coesos e bem definidos. Ele próprio tinha receio de lá para perto do final ter de acabar com alguns, que durante todo aquele processo, foram cativando o coração dele e se tornando quase um amigo ou um irmão.

Um personagem em especial.

O quarto estaria engolido pelo escuro se não fosse pela fraca luz da lua que entrava através da janela e pela lâmpada da luminária de mesa que emitia raios amarelados para cima do papel que servia como objeto de criação dele.

Ele estava tão preso em seu mundo, passando a ponta da caneta sobre a superfície de papel, formando letras, palavras e então frases que interligavam todo o enredo de seu mundo, que nem percebeu os primeiros flocos de neve caindo do céu e chocando-se, quase inaudíveis, com o chão quente de Lago Negro.

Quem pusesse o ouvido perto do asfalto naqueles primeiros minutos ouviria o barulho dela derretendo quando encontrava o calor do local em que tocava. O mesmo barulho que uma superfície fervendo emite ao jogar-se água fria sobre ela.

“Sssssssssssssssss”.

“Sssssssssssssssss”.

Foi só quando uma rajada de vento entrou pela janela que o garoto tinha deixado aberta, a fim de fazer o ar circular e refrescar, que seus olhos se desviaram e sua atenção foi tomada por algo que para ele parecia impossível.

Aquilo não podia acontecer na sua cidade.

Neve em Lago Negro. Uma das cidades mais quentes de Santa Catarina.

Esfregou seus olhos, como para despertar de um sonho ou algo do tipo e um sorriso brotou de orelha a orelha quando constatou que era verdade.

Neve.

Saiu do quarto correndo, mas parou ao lembrar-se do que estava caindo do lado de fora. Neve. Frio.

Voltou e abriu o guarda-roupas. Vasculhou pelas pilhas de roupas que quase nunca precisava usar. Casacos e cachecóis que cheiravam a mofo, esquecidos no fundo das prateleiras.

Pegou duas peças e vestiu-as e então voltou a correr.

Desceu as escadas gritando para quem estivesse dentro de casa.

— Gente, vem ver isso. Rápido!

Não esperou resposta. Correu até a porta e saiu. Foi até o jardim da casa, onde abriu os braços, olhou para o céu e se deixou sentir.

— Que sensação gostosa.

Ainda estava daquela forma, sorrindo feito uma criança que acabara de ganhar algo pelo que esperneara para conseguir, quando sua mãe se juntou a ele.

— Isso não é possível.

Marcos olhou para ela.

— Pode apostar que é.

***

A neve nunca tinha feito uma visita à Lago Negro e parecia um tanto quanto impossível aquilo acontecer ali. Desde que a história começou a ser escrita, ninguém jamais descreveu tal acontecimento naquelas terras ao norte de Santa Catarina.

Porém não tinha passado no jornal há dois dias algo semelhante ocorreu em alguma cidade próxima dali?

Aquecimento global.

Essa era a pauta do jornal desde que aquele primeiro fenômeno os visitou. Reportagens e mais reportagens tentando encontrar algum motivo que explicasse a presença da neve em pleno verão, em uma cidade em que a um dia atrás a máxima havia marcado 38º.

Nenhum jornalista tinha conseguido entrar naquela cidade ainda, pois a nevasca era tão intensa que se tornava perigosa. Ninguém conseguia ver nada. E já ia para o terceiro dia naquela situação.

E Lago Negro era a próxima.

Mas ninguém conseguia convencer ninguém com as explicações e teorias.

E eles continuavam apostando no aquecimento global.

Porém ela estava vindo, a passos lentos e sorridente, de encontro à próxima cidade onde faria seu julgamento. Não estava mais faminta, pois a refeição de dois dias atrás tinha sido rica. Quase ninguém foi mantido vivo naquele lugar. E tinha certeza que o mesmo aconteceria com a próxima e com as próximas cidades.

Poucos seriam os escolhidos.

Poucos sobreviveriam.